Podcast Vivencie: a vivência como ferramenta de combate ao preconceito e à desinformação
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Luane Fernandes Costa é jornalista e doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). E-mail: fernandesluane@gmail.com.

Resumo
O podcast Vivencie foi idealizado e produzido por jornalistas na cidade de Mossoró, interior do Rio Grande do Norte, estado localizado na região Nordeste do Brasil, com o propósito de abordar questões urgentes que afetam populações marginalizadas. Este projeto visa dar visibilidade às vivências de identidades LGBTQIAPN+, indígenas, remanescentes quilombolas, pessoas soropositivas e periféricas, em um contexto político marcado pelo avanço da extrema direita e pelo agravamento das desigualdades sociais e raciais durante a pandemia. O Vivencie justifica-se por sua relevância social, ao oferecer uma plataforma para que temas frequentemente negligenciados pela mídia hegemônica e por espaços acadêmicos sejam discutidos. O podcast busca trazer à tona as realidades de exclusão social e os preconceitos enfrentados por essas minorias, buscando influenciar a opinião pública e pressionar os órgãos governamentais a assegurar os direitos desses grupos. Os episódios são estruturados com base na interseccionalidade, utilizando bibliografia majoritariamente de autores não brancos e abordando múltiplas dimensões de opressão, como racismo, sexismo e discriminação de gênero. O podcast insere-se no eixo Comunicação Antirracista e Tecnologia do Edital Vozes da Améfrica Ladina, promovendo o protagonismo de afrodescendentes e outros grupos minoritários.
Palavras-chave: Podcast; Interseccionalidade; Diversidade; Direitos humanos; Antirracismo.
Abstract
The Vivencie podcast was conceived and produced by journalists in the city of Mossoró, in the interior of Rio Grande do Norte, state of Brazil’s Northeast, with the purpose of addressing urgent issues affecting marginalized populations. This project aims to give visibility to the experiences of LGBTQIAPN+ identities, indigenous peoples, quilombola descendants, people living with HIV, and those from peripheral communities, within a political context marked by the rise of the far-right and worsening social and racial inequalities during the pandemic. Vivencie is justified by its social relevance, providing a platform for topics that are often neglected by mainstream media and academic spaces to be discussed. The podcast seeks to highlight the realities of social exclusion and prejudice faced by these minorities, aiming to influence public opinion and pressure government bodies to ensure the rights of these groups. The episodes are structured around intersectionality, utilizing literature from Black authors and addressing multiple dimensions of oppression, such as racism, sexism, and gender discrimination. The podcast fits into the “Antiracist Communication and Technology” axis of the Vozes da Améfrica Ladina edital, promoting the protagonism of Afro-descendants and other minority groups.
Keywords: Podcast; Intersectionality; Diversity; Human rights; Antiracism.
Introdução
O podcast Vivencie foi produzido por jornalistas do interior do estado do Rio Grande do Norte, na cidade de Mossoró, Nordeste do Brasil. Em uma cidade universitária do sertão potiguar, o projeto foi idealizado com o objetivo de debater temas urgentes que afligem as populações marginalizadas, trazendo protagonismo às identidades de pessoas LGBTQIAPN+, indígenas, remanescentes quilombolas, soropositivas e periféricas.
Esta produção buscou conversar com quem vivencia, na pele, problemas diários de exclusão social, preconceito e até mesmo a falta de acesso a recursos básicos, como moradia e educação. No cenário político dos últimos anos, marcado pela ascensão da extrema direita e pelos conflitos e desafios causados pela pandemia, que acentuou desigualdades sociais e raciais, tornou-se ainda mais necessário abordar as opressões sofridas por minorias, cujos poucos direitos conquistados foram, e ainda estão sendo, ameaçados e negados pelo poder público e pela sociedade.
Devido a isso, este trabalho justifica-se pela sua relevância social, contribuindo para que os ouvintes do podcast compreendam dilemas que não são por eles vivenciados, que não são relatados pela mídia hegemônica e que, muitas vezes, sequer alcançam os espaços acadêmicos. Dessa forma, propomos-nos, por meio deste podcast, a dar visibilidade às necessidades e urgências dos sujeitos retratados nos diferentes episódios realizados, para que a sociedade possa, enfim, compreender seus dilemas e, principalmente, pressionar os órgãos públicos pelo cumprimento de seus direitos, retirando essas pessoas das margens.
Tendo em vista o mito da democracia racial no Brasil, que tenta mitigar os danos psíquicos, físicos, materiais e morais causados pelo racismo, a hegemonia do binarismo de gênero, que violenta os corpos dissidentes das normas-padrão, e toda a colonialidade e imposição ocidental sobre os corpos negros, quilombolas, indígenas, dissidentes de gênero, entre outros, escolhemos as temáticas dos episódios dialogando com as identidades dissidentes, periféricas e marginalizadas e/ou com temas que afligem esses corpos, como a questão do proibicionismo das drogas, que atinge principalmente a parcela negra e pobre da população brasileira, sob a justificativa da suposta "guerra às drogas".
Nesse sentido, o podcast Vivencie encaixa-se no segundo eixo temático do Edital Vozes da Améfrica Ladina, Comunicação Antirracista e Tecnologia, uma vez que promove e dá protagonismo à voz de pessoas afrodescendentes que também podem se encaixar em outros grupos minoritários, como pessoas religiosas de matriz africana, ativistas, pessoas trans, remanescentes quilombolas, residentes de periferias, pessoas soropositivas, entre outros.
Assim, para o embasamento e roteirização dos episódios — que somam cinco, atualmente —, utilizamos uma bibliografia composta por autores majoritariamente negros, utilizando como ferramenta metodológica a interseccionalidade (CRENSHAW, 1989; AKOTIRENE, 2019) e a roleta interseccional (CARRERA, 2021). A partir desse conceito, compreendemos a importância de reconhecer os cruzamentos que atravessam os diferentes sujeitos entrevistados, os quais representam mais de uma avenida identitária (AKOTIRENE, 2019), sendo oprimidos de forma dupla, por vezes tripla, como é o caso das mulheres negras.
Conforme Lélia Gonzalez:
Ser negra e mulher no Brasil, repetimos, é ser objeto de tripla discriminação, uma vez que os estereótipos gerados pelo racismo e pelo sexismo a colocam no nível mais alto de opressão. [...] ela se volta para a prestação de serviços domésticos junto às famílias das classes média e alta da formação social brasileira. Enquanto empregada doméstica, ela sofre um processo de reforço quanto à internalização da diferença, da subordinação e da "inferioridade" que lhe seriam peculiares (GONZALEZ, 2020, p. 58).
O podcast Vivencie é uma iniciativa independente de jovens jornalistas, que acreditam na importância da informação e da comunicação no combate ao racismo e às demais opressões que impactam a vida de inúmeras pessoas. Realizado de forma autônoma, sem fomentos de nenhuma instituição, o podcast desenvolveu cinco episódios disponibilizados em inúmeras plataformas digitais de áudio. Além da interseccionalidade, compreendemos a importância cultural e diaspórica nos temas tratados, principalmente no que diz respeito às identidades indígenas e quilombolas.
A primeira temporada do Vivencie inclui episódios sobre a realidade trans na educação e no mercado de trabalho, a luta da líder indígena Lúcia Paiacu Tabajara pela preservação cultural e a experiência das mulheres remanescentes de quilombo.
A segunda temporada, intitulada Contramaré, explora temas considerados tabus, como o HIV e a guerra às drogas, desmistificando preconceitos e oferecendo uma visão crítica sobre a criminalização das drogas.
A produção do podcast envolveu uma abordagem metodológica que inclui pesquisa exploratória e de campo, entrevistas e análise bibliográfica. Recursos técnicos, como gravadores de áudio e microfones, foram utilizados para garantir a qualidade das gravações. A divulgação foi realizada por meio das redes sociais e de um site dedicado, facilitando o acesso e a compreensão do conteúdo por parte do público.
Em resumo, o podcast Vivencie representa uma importante ferramenta de comunicação e conscientização social, trazendo à tona as histórias e os desafios enfrentados por grupos marginalizados e contribuindo para uma discussão mais inclusiva e informada sobre temas de relevância social.
Por dentro do podcast Vivencie: um pouco sobre as discussões levantadas nos episódios
O primeiro episódio tratou da realidade trans no âmbito escolar, universitário e no mercado de trabalho, entrevistando três pessoas em diferentes fases de formação. A primeira entrevistada foi Renata Lorrayne, estudante do ensino médio em uma escola pública da cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte. A segunda conversa foi com Maria Luz, estudante de Direito. Por fim, entrevistamos Daniel Guedes, professor e intérprete de Libras.
Por meio de diálogos livres, foi possível entender as diversas condições problemáticas nas quais os sujeitos trans vivem diariamente. Os conceitos de passabilidade e cisgeneridade, extremamente importantes na compreensão das questões pautadas por eles, foram abordados de maneira didática para facilitar o entendimento dos assuntos discutidos.
Figura 1 — A transformação vem da re(existência)
Fonte: Capa do episódio, disponível no Spotify, Deezer, entre outras plataformas (2019).
O segundo episódio buscou retratar a vivência da líder e militante indígena da família Tapuia Paiacú, do município de Apodi, no estado do Rio Grande do Norte. Lúcia Cará, que já recebeu o parecer do Ministério Público para alterar seu nome para Lúcia Paiacu Tabajara, luta para que a cultura indígena seja respeitada e preservada em um contexto de silenciamento e etnocídio ao qual os povos originários do Brasil ainda estão submetidos desde o período de colonização.
Lúcia empenha-se na preservação da memória de seus antepassados, buscando manter viva sua cultura e sua história. Para contribuir no resgate de sua ancestralidade, a líder criou o Museu do Índio Luiza Cantofa, cuja sede foi montada em um terreno cedido pela Prefeitura. No museu, está atualmente sendo exibido um acervo de peças antigas, características dos costumes indígenas, reunidas por ela, além de retratar a luta que os indígenas da região enfrentam diariamente.
Figura 2 — O legado e a luta de uma líder indígena
Fonte: Capa do episódio, disponível no Spotify, Deezer, entre outras plataformas (2019).
O terceiro e último episódio da primeira temporada foi dedicado a abordar as vivências das mulheres remanescentes de quilombo da comunidade do Sobrado, localizada no município de Portalegre, também no Rio Grande do Norte. Os diálogos foram conduzidos com as irmãs Joyce e Juliana, estudantes universitárias do curso de Licenciatura em Educação do Campo.
As irmãs contaram um pouco de suas vivências enquanto mulheres remanescentes de quilombo e relataram a dupla opressão sofrida por elas: o racismo e o machismo. Além disso, trouxeram à tona a história do Sobrado e inúmeras questões pertinentes, como o destaque que as mulheres negras possuem em suas comunidades, o racismo institucional, a falta de políticas públicas voltadas à população quilombola e a importância da educação como principal ferramenta transformadora para aniquilar o racismo.
Figura 3 — A força das mulheres remanescentes de quilombo da comunidade do Sobrado
Fonte: Capa do episódio, disponível no Spotify, Deezer, entre outras plataformas (2020).
A segunda temporada, intitulada Contramaré, abordou temas pouco discutidos na sociedade e nas grandes mídias, por serem considerados tabus e contra-hegemônicos, indo na "contramaré" do que dita o senso comum.
Nos episódios em questão, pretendeu-se desmistificar diversos preconceitos que perpassam esses assuntos, por meio de conversas com pessoas afetadas por essas questões, bem como profissionais e especialistas. As temáticas envolvem o HIV e o proibicionismo, que acarreta na suposta "guerra às drogas". Importante frisar que o episódio debate o uso equivocado desse termo, uma vez que a guerra atinge alvos específicos da população brasileira, os usuários não brancos e pobres.
Figura 4 — Contramaré
Fonte: Instagram do podcast Vivencie (2020).
Pode Amar sem Medo: rompendo os mitos sobre o HIV é o primeiro episódio da temporada Vivencie: Contramaré, e abordou informações necessárias sobre o HIV e a aids, que ainda são amplamente estigmatizadas. Por meio dos relatos de Mateus e Carlos, ouvimos e conhecemos um pouco das experiências de quem convive com o HIV, entendendo que é possível levar uma vida de qualidade e amar sem medo. O intuito do episódio foi ajudar a desmistificar preconceitos sobre o assunto, desconstruindo os tabus e a falta de informação que ainda o envolvem.
Figura 5 — Pode amar sem medo
Fonte: Instagram do podcast Vivencie (2020).
Quem morre com a repressão ao tráfico e às drogas? Quem se beneficia com o combate às drogas e o proibicionismo? Quem é preso e morto nesse enfrentamento?
Buscando entender como se configura a suposta "guerra às drogas" no Brasil, conversamos com especialistas e usuários de drogas para melhor entender as questões que envolvem a proibição e criminalização das drogas.
Um dos convidados do podcast foi Olavo Hamilton, advogado, professor, mestre e doutor em Direito, além de pesquisador sobre a criminalização das drogas e a guerra às drogas, com dois livros publicados sobre o tema.
O episódio também convidou Geovana Coelho, mulher negra, professora de História, servidora pública, escritora e uma das fundadoras do coletivo Tarja Verde, que se dedica a debater a legalização das drogas e seus desdobramentos.
Por fim, convidamos Paulo Cunha, jovem universitário negro e Diretor de Negros e Negras da União Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Norte, que compartilhou sua experiência enquanto usuário.
Figura 6 — Dichavando o antiproibicionismo
Fonte: Instagram do podcast Vivencie (2020).
Descrição das pesquisas realizadas
Primeiramente, fez-se necessário estudar as questões técnicas envolvidas na realização de um podcast. Com esse fim, exploramos a obra de Leo Lopes (2015), um guia básico sobre podcasting.
Para pôr o projeto em prática, realizamos, primeiramente, uma pesquisa exploratória e de campo, buscando adentrar os mundos de cada objeto de estudo. O contato presencial com as personagens foi o principal fator que trouxe familiaridade e maior entendimento acerca de cada assunto.
Tal aproximação corrobora com o título do podcast, Vivencie, uma vez que não apenas os integrantes do grupo, que estiveram fisicamente nos locais de pesquisa, se aproximaram dos campos de estudo e das vivências de cada personagem, mas também o público, que poderá acessar os episódios e, por meio deles, vivenciar essas experiências.
Quanto aos procedimentos técnicos da abordagem científica, utilizamos a pesquisa bibliográfica para analisar a história indígena no Rio Grande do Norte e no Brasil, com o intuito de compreender o contexto atual desses povos. Para isso, lemos o artigo Remanescentes Indígenas no Rio Grande do Norte: o indígena no século XXI, além de Povos Indígenas e o Direito à Terra na Realidade Brasileira, de Elizângela Cardoso de Araújo Silva (2018).
Utilizamos também, e principalmente, a técnica da entrevista, que nos permitiu colocar o projeto em prática, possibilitando a coleta de informações e depoimentos das personagens entrevistadas.
Para aprofundar o trabalho, também lemos o livro Aprendendo a Observar (DANNA; MATOS, 2006). A leitura contribuiu para a compreensão da importância do silenciar para escutar e observar, permitindo que as conversas fluíssem, sem interrupções ou interferências.
Como abordamos diferentes realidades e vivências, estudar o conceito de cultura foi fundamental. De acordo com Laraia (2008), cultura é "o todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade." (LARAIA, 2008, p. 14).
Para fundamentar o discurso das personagens convidadas no episódio sobre o caminho de pessoas trans na educação, utilizamos o texto de Paulo da Moita Lopes (2002), em Identidades Fragmentadas: a construção de raça, gênero e sexualidade na sala de aula.
As pesquisas realizadas para o último episódio da primeira temporada basearam-se na leitura de artigos sobre as vivências de remanescentes quilombolas no Brasil, bem como na reflexão sobre as teorias de Angela Davis, Lélia Gonzalez, Patricia Hill Collins e bell hooks. Essas autoras abordam inúmeras questões pertinentes às mulheres negras, como a urgência de discutir o racismo, que oprime tanto negros quanto negras no Brasil sob o mito da democracia racial, a ideia de que vivemos em uma sociedade em que todos possuem oportunidades iguais.
Sabemos que esse mito apenas mascara a opressão. É preciso combatê-lo todos os dias, até que vivamos em uma sociedade verdadeiramente antirracista.
Outro conceito importante em nossas pesquisas e na construção dos nossos episódios é o da interseccionalidade, que permite analisar as particularidades vivenciadas pelos sujeitos atravessados por múltiplas opressões. Trata-se de uma demanda científica e política que surgiu das falas de feministas negras, que reivindicavam a visibilidade de suas experiências, comumente despercebidas pelo feminismo branco e pelo movimento antirracista.
De acordo com Kimberlé Crenshaw, intelectual afro-estadunidense responsável por criar o conceito, a interseccionalidade é uma articulação teórico-metodológica que possibilita:
enxergar a colisão das estruturas, a interação simultânea das avenidas identitárias, além do fracasso do feminismo em contemplar mulheres negras, já que reproduz o racismo. Igualmente, o movimento negro falha pelo caráter machista, oferece ferramentas metodológicas reservadas às experiências apenas do homem negro (AKOTIRENE, 2019, p. 19).
Desse modo, as investigações e análises propostas no podcast Vivencie serão ancoradas no conceito de interseccionalidade, importante ferramenta teórico-metodológica que permite visualizar os cruzamentos entre raça, gênero e classe, promovendo um debate que não desconsidere tais aspectos e que não invisibilize as particularidades das mulheres racializadas.
Na visão de Luiza Bairros (2002), a interseccionalidade "aponta possibilidades de pensar os aspectos raciais da discriminação de gênero, sem perder de vista os aspectos de gênero da discriminação racial" (apud AKOTIRENE, 2019, p. 55). Portanto, essa ferramenta é essencial para as discussões propostas ao longo do projeto.
Além disso, é importante abordar o conceito de "diáspora", que atravessa diversos episódios, especialmente aqueles que tratam das identidades quilombolas e periféricas. Esse conceito surgiu como uma reflexão acerca dos efeitos das migrações, das relações entre colônia e metrópole, bem como das vivências de deslocamentos de sujeitos de sua pátria de origem para outras nações.
Conforme Stuart Hall:
O conceito fechado de diáspora se apóia sobre uma concepção binária de diferença. Está fundado sobre a construção de uma fronteira de exclusão e depende da construção de um "Outro" e de uma oposição rígida entre o dentro e o fora (HALL, 2003, p. 33).
Porém, há ainda a noção de que o termo "diáspora" está totalmente ligado à identidade cultural e, portanto, seu significado não pode ser fechado, pois está sempre em movimento:
"Esta é a sensação familiar e profundamente moderna de deslocamento, a qual — parece cada vez mais — não precisamos viajar muito longe para experimentar" (HALL, 2003, p. 27).
O deslocamento, tão ligado à diáspora, refere-se a essa sensação de não pertencimento, de trânsito constante. Estima-se que cerca de 12,5 milhões de africanos foram trazidos à força de seu continente para as Américas, Europa e outras regiões da África.
Segundo o Voyages: The Transatlantic Slave Trade Database, o maior banco de dados sobre o tráfico negreiro transatlântico, 36,7% dos africanos escravizados desembarcaram no Brasil. Em comparação aos outros países, o Brasil foi aquele que mais recebeu africanos.
Dessa forma, os africanos escravizados e todos os seus descendentes sofreram o que podemos chamar de uma "diáspora forçada". Ainda conforme Hall, os sujeitos diaspóricos "devem aprender a habitar, no mínimo, duas identidades, a falar duas linguagens culturais, a traduzir e a negociar entre elas" (HALL, 2003, p. 89).
Assim, ainda que silenciados — literalmente amordaçados no período colonial —, os sujeitos da diáspora africana contribuíram para a criação de novas culturas e novas formas de saber, que envolvem a espiritualidade, a subjetividade e a sociabilidade (BERNARDINO-COSTA; MALDONADO-TORRES; GROSFOGUEL, 2019).
Sobre a produção do podcast
Na realização do projeto, foram utilizados recursos técnicos, como um gravador de áudio digital da marca Zoom, modelo H4N; um microfone dinâmico profissional, modelo M-58; e um cabo de áudio estéreo. Os equipamentos foram compartilhados entre os integrantes do grupo e os entrevistados durante a conversa.
A gravação do primeiro episódio ocorreu em um local fechado, especificamente em uma sala de apartamento, com a presença dos integrantes do podcast e dos três convidados para a discussão do tema.
Na edição do primeiro e terceiro episódios, foram usadas trilhas sonoras obtidas em plataformas que disponibilizam músicas e efeitos sonoros, tanto gratuitos quanto pagos, como Bensound, Youtube Audio Library, Jingle Punks e o Estúdio de Criação do Facebook. A trilha sonora foi pensada e selecionada para ambientar e envolver os ouvintes nas histórias narradas. Em alguns momentos, o silêncio foi propositalmente utilizado como recurso emotivo para proporcionar uma atmosfera apreensiva no ouvinte.
O local da gravação do primeiro e terceiro episódios foi a cidade de Mossoró, interior do estado do Rio Grande do Norte. Já para a produção do segundo episódio, foi necessário o deslocamento até a cidade de Apodi, também localizada no interior do estado. Nessa ocasião, utilizou-se um microfone Rode, conectado via cabo diretamente a um notebook, para captar o áudio. A gravação foi realizada na sede do Museu do Índio Luiza Cantofa, com as portas abertas. Durante a edição da trilha sonora, foram adicionados efeitos sonoros ambientes, como sons da lagoa próxima ao local, cantos de pássaros e canções que remetem à cultura indígena, retiradas da plataforma Youtube Audio Library.
Para a gravação dos trechos off, feitos separadamente das entrevistas com os convidados, foram utilizados um cabo de áudio estéreo, um microfone dinâmico profissional modelo M-58 e uma câmera da marca Nikon, modelo 70D (sendo a parte visual das gravações posteriormente excluída na edição). A gravação ocorreu em um estúdio com isolamento acústico, localizado no bloco do curso de Música da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).
A divulgação do podcast foi feita por meio da rede social Instagram, com a criação de uma conta específica para o projeto. Foram publicadas postagens informativas sobre os temas abordados, bem como artes gráficas promocionais para o feed, além de fotos e vídeos destinados aos stories e destaques, facilitando o acesso do público ao conteúdo, permitindo maior entendimento dos objetivos do podcast e a identificação com os assuntos discutidos. Além disso, foi criado e desenvolvido um site na plataforma Wixsite.
A logo do podcast foi elaborada pelo software de edição Photoshop CC, utilizando tons de amarelo e vermelho. O design e a identidade visual do site foram desenvolvidos para manter coerência com os temas abordados e proporcionar fácil acesso aos ouvintes. O design do site foi escolhido para simplificar a compreensão dos conteúdos dispostos.
Considerações finais
O podcast Vivencie emerge como uma significativa contribuição para os campos midiático e acadêmico, ao oferecer uma plataforma vital para a discussão de questões sociais e políticas frequentemente negligenciadas pela mídia hegemônica. Ao focar em temas relacionados à marginalização e às opressões enfrentadas por diversos grupos minoritários, como pessoas LGBTQIAPN+, indígenas, remanescentes quilombolas, soropositivas e periféricas, o podcast preenche uma lacuna importante no que diz respeito à visibilidade dessas experiências.
A abordagem interseccional adotada pelo Vivencie permite uma compreensão mais profunda das complexas camadas de opressão e desigualdade que afetam esses grupos. Utilizando uma metodologia que combina pesquisa bibliográfica, entrevistas e análise crítica, o podcast não apenas destaca as realidades marcadas pela exclusão social e pelo preconceito, como também promove um espaço de empatia e aprendizado para o público em geral. A inclusão de temas como racismo, sexismo e discriminação de gênero, bem como questões específicas como o HIV e a "guerra às drogas", sublinha a relevância e a abrangência do projeto.
O Vivencie também se destaca por sua autonomia e independência na produção, o que reforça a importância de iniciativas que operam fora das estruturas tradicionais de financiamento e apoio institucional. Essa independência permite uma abordagem mais autêntica e livre de influências externas, evidenciando o compromisso dos idealizadores com a verdade e a justiça social.
Além disso, a inserção do podcast no eixo Comunicação Antirracista e Tecnologia do Edital Vozes da Améfrica Ladina fortalece a missão do projeto de promover o protagonismo de grupos historicamente marginalizados. Ao explorar e divulgar as vozes e histórias desses indivíduos, o podcast não apenas educa e engaja o público, como também contribui para pressionar órgãos públicos e sociais pela garantia e efetivação dos direitos humanos.
Por fim, o podcast Vivencie representa um passo importante na construção de uma sociedade mais inclusiva e consciente. Sua capacidade de abordar questões complexas e suas contribuições para a discussão em torno das injustiças sociais e raciais demonstram o impacto positivo que projetos de mídia independente podem exercer na promoção de mudanças sociais. A continuidade e o sucesso do podcast podem inspirar outras iniciativas similares e fortalecer a luta por um mundo mais justo e equitativo.
Referências bibliográficas
AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Pólen Livros, 2019.
BERNARDINO-COSTA, Joaze; GROSFOGUEL, Ramon; MALDONADO-TORRES, Nelson. Decolonialidade e Pensamento Afrodiaspórico. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2018. Coleção Cultura Negra e Identidades.
CARRERA, F. Roleta interseccional: proposta metodológica para análises em Comunicação. E-Compós, v. 24, 2021. DOI: 10.30962/ec.2198.
Disponível em: https://www.e-compos.org.br/e-compos/article/view/2198
Acesso em: 13 ago. 2024.
DANNA, André; MATOS, Maria. Aprendendo a Observar. São Paulo: Editora DEF, 2006.
GONZALEZ, Lélia. Por um Feminismo Afro-Latino-Americano. Organização: Flavia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG; Brasília: Representação da UNESCO no Brasil, 2003.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
LOPES, Leo. Podcast: guia básico para iniciantes. São Paulo: Editora Marsupial, 2015.
LOPES, Paulo da Moita. Identidades Fragmentadas: a construção de raça, gênero e sexualidade na sala de aula. Revista Brasileira de Educação, v. 17, n. 1, p. 55–68, 2002.
SILVA, Elizângela Cardoso de Araújo. Remanescentes Indígenas no Rio Grande do Norte: o indígena no século XXI. Revista Brasileira de Estudos Indígenas, v. 9, n. 2, p. 33–50, 2018.
SILVA, Elizângela Cardoso de Araújo. Povos Indígenas e o Direito à Terra na Realidade Brasileira. Revista Brasileira de Direitos Humanos, v. 5, n. 3, p. 99–115, 2018.
Esse artigo faz parte da publicação Olhares Insurgentes da Améfrica Ladina
