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Negritude em Letras: o ciberativismo comoestratégia de resistência e luta antirracista

há 2 dias
19 min de leitura

Resumo


Em um cenário marcado pelo crescimento do racismo à brasileira e do extremismo, torna-se crucial desenvolver contra-argumentações que não reforcem posições que violem os direitos humanos. Fanon (2008) sugere que os povos colonizados devem se posicionar em relação à linguagem — e, no contexto atual, as redes sociais podem ser usadas como ferramentas estratégicas para promover práticas educativas antirracistas e antissexistas. Este estudo examina o uso do ciberativismo como uma estratégia de resistência e luta contra o racismo, abordando-o a partir de diversas perspectivas teóricas e práticas. A página Negritude em Letras é discutida como um exemplo de ciberativismo, destacando seu papel na promoção da educação antirracista, na amplificação de vozes marginalizadas e na mobilização social.


Palavras-chave: Ciberativismo; Educação Antirracista; Racismo Institucional; Redes Sociais.


Abstract


In a scenario where Brazilian racism and extremism have been growing, it is crucial to develop counter arguments that do not reinforce positions that violate human rights. Fanon (2008) suggests that colonized peoples should take a stance regarding language, and in the current context, social media can be used as strategic tools to promote antiracist and antisexist educational practices. This study examines the use of cyberactivism as a strategy of resistance and struggle against racism, approaching it from various theoretical and practical perspectives. The page Negritude em Letras is discussed as an example of cyberactivism, highlighting its role in promoting antiracist education, amplifying marginalized voices, and fostering social mobilization.


Keywords: Cyberactivism; Antiracist Education; Institutional Racism; Social Media.


Racismo à brasileira, extremismo político e primeiras palavras


Djamila Ribeiro, filósofa e militante do movimento negro, certa vez afirmou, em entrevista, algo que motivou meu trabalho como educadora popular1 nas redes. A autora afirmou: “É melhor a gente falar, senão o peso do silêncio vai acabar nos engasgando”. Essa fala pode parecer banal para quem nunca teve sua voz sufocada e precisou gritar para ser ouvido. Por outro lado, ela também reflete o sentimento de muitos brasileiros e brasileiras. É essencial romper com os silêncios e com as narrativas únicas. Grupos marginalizados raramente encontram um espaço de expressão com grande alcance social. As palavras que nos ferem e desumanizam podem se transformar em resistência.


Vivemos em uma época em que, apesar do discurso ostensivo de combate ao racismo e da implementação de políticas públicas destinadas à redução das desigualdades sociais e raciais, o extremismo político e os discursos preconceituosos têm se propagado, tanto de forma explícita quanto velada. A pesquisa Percepções sobre o Racismo2 indica que a maioria da população brasileira não se considera racista, apesar de 81% dos entrevistados concordarem que o Brasil é um país que discrimina pessoas por conta da cor da pele. Esse paradoxo 1 A Educação Popular é uma filosofia, pedagogia e prática educacional que surgiu dos movimentos sociais da América Latina, em oposição à colonização e aos regimes autoritários do século XX. No Brasil, Paulo Freire é sua principal referência, criticando a “educação bancária”, modelo em que professores transferem o conhecimento aos alunos unilateralmente, perpetuando a opressão social. Em contraste, a Educação Popular promove uma abordagem dialógica e participativa, valorizando os saberes comunitários e buscando a emancipação e a transformação social. 2 Encomendada pelo Instituto de Referência Negra Peregum e pelo Projeto Seta, sendo realizada pelo Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (IPEC). revela o que Munanga (1988) chama de “racismo à brasileira”, sustentado pela ampla difusão da ideia de que vivemos em uma democracia racial3.


Diferentemente de outras sociedades, nas quais o racismo é frequentemente mais explícito, no Brasil, às vezes, ele se manifesta de forma sutil e dissimulada. Por isso, Munanga (2003) argumenta que a ideia de democracia racial é um mito, porque esconde as profundas desigualdades raciais existentes no país. Da mesma forma, Carneiro (2023) argumenta que o racismo se manifesta como um mecanismo de poder em sociedades multirraciais com histórico escravocrata, nas quais se fundem as contradições de raça e classe, afetando a estrutura social e mantendo a população negra nas classes mais baixas. O racismo tem sido uma constante em minha trajetória como mulher negra e docente, assim como nas experiências compartilhadas por muitos colegas negros. Vai muito além das ofensas verbais, que tornam o racismo facilmente identificável.


Essas “perversões institucionais”, como define Muniz Sodré (2023), cristalizam-se em situações como a deslegitimação e a exclusão de processos decisórios, a ausência em cargos de tomadas de decisões, a desvalorização de minhas competências e trajetória profissional, ou ainda, no tratamento desigual que recebo. Akotirene (2018) ressalta que o padrão colonial moderno é responsável por fomentar racismos e sexismos institucionais.


Essas práticas continuam a permear os sistemas legais mo3 O conceito de democracia racial foi amplamente propagado pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre na década de 1930, principalmente em sua obra Casa-Grande & Senzala. Freyre argumentava que o Brasil, devido à miscigenação entre europeus, africanos e indígenas, teria desenvolvido uma sociedade sem as tensões raciais observadas em outros países, como os Estados Unidos. dernos, prejudicando a dignidade humana e ignorando as leis antidiscriminatórias. Dessa forma, um corpo negro, independentemente de ter um mestrado ou doutorado, é visto, em primeiro lugar, como um indivíduo negro pela sociedade. E, quando apontamos situações de discriminação ou racismo, muitas vezes somos desacreditados e rotulados como exagerados ou alarmistas, mesmo que nossas preocupações estejam fundamentadas em leis federais, como a Lei no 7.716, que aborda crimes resultantes de preconceito racial, e a Lei no 14.532/2023, que fortalece medidas e sanções contra o racismo, ampliando as proteções e garantias aos afetados.

É por isso que Munanga (2017) afirma que o racismo no Brasil pode ser considerado um crime perfeito. O brasileiro, frequentemente, diz ao negro que reage: “Você que é complexado, o problema está na sua cabeça”. Dessa forma, ele rejeita a culpa e transfere a responsabilidade para a própria vítima. Munanga explica que nosso racismo é um crime perfeito porque a responsabilidade pelo racismo é atribuída à própria vítima, enquanto o perpetrador não reconhece qualquer problema.


Todos os racismos são abomináveis, são crimes, mas eu achei que o racismo brasileiro é um crime perfeito partindo da ideia de um judeu, prêmio [Nobel] da Paz, que disse uma vez que o carrasco mata duas vezes, a segunda pelo silêncio. [...] você pergunta pelo racista e você não encontra, ninguém se assume, mas o racismo e a discriminação existem. Esse racismo matava duas vezes, mesmo fisicamente, a exclusão e tudo, e matava a consciência da própria vítima. A consciência de toda a sociedade brasileira em torno da questão, o silêncio, o não dito... nesse sentido, era um crime perfeito porque não deixava nem a consciência da própria vítima, nem a do resto da população através do chamado mito da democracia racial (MUNANGA, 2017, p. 40).

Houve uma situação que vivenciei, na qual me pediram para não me envolver, nem falar sobre um incidente de racismo entre estudantes no campus onde trabalhava, sendo o ocorrido minimizado como uma transgressão disciplinar. Além disso, enfrentei acusações de histeria e falta de ética por classificar tais comportamentos como racismo, sob a alegação de que minha atitude era movida por crenças pessoais e ativismo, o que, supostamente, afetava meu desempenho e responsabilidade enquanto profissional.


Lélia Gonzalez (1984) aponta como, frequentemente, a pessoa negra é infantilizada, percebida como inferior intelectualmente e marcada por estereótipos negativos. Segundo ela, uma das primeiras observações ao se discutir o racismo é a normalização dessa discriminação, como se fosse natural a atribuição de certos traços falsamente associados a pessoas negras, como irresponsabilidade, agressividade, incapacidade intelectual e imaturidade.


A primeira coisa que a gente percebe, nesse papo de racismo é que todo mundo acha que é natural. Que negro tem mais é que viver na miséria. Por quê? Ora, porque ele tem umas qualidades que não estão com nada: irresponsabilidade, incapacidade intelectual, criancice, etc. e tal (GONZALEZ, 1984, p. 225). Portanto, a análise de Gonzalez não apenas revela como o preconceito se manifesta no cotidiano, mas também como essas percepções se conectam a uma lógica mais ampla de racismo institucional, no qual o objetivo é manter a dominação branca por meio da exclusão e da marginalização de pessoas negras. Além do racismo sutil presente nas interações cotidianas, o aumento dos discursos de ódio e a deslegitimação das pautas antirracistas, amplamente difundidos nas redes sociais, agravam ainda mais a situação.


Em um contexto em que o racismo à brasileira e o extremismo têm sido constantes, é fundamental desenvolver contra-argumentações discursivas que não fortaleçam posicionamentos que violem os direitos humanos. Além disso, é essencial debater o papel da mídia na criação e perpetuação de estereótipos e discursos racistas. A mídia frequentemente promove um discurso que normaliza a superioridade branca, reforça o mito da democracia racial e discrimina os negros. Isso ocorre porque quem controla e patrocina os meios de comunicação molda e remolda a visão de mundo veiculada.

Dessa forma, entendendo a linguagem como um instrumento de manutenção do poder, a língua tem sido considerada, desde os escritos de Fanon, como o principal meio de dominação. Em seu renomado livro Pele Negra, Máscaras Brancas (2008), Fanon aborda a questão da linguagem, afirmando que “falar é existir absolutamente para o outro” (p. 33).


Portanto, Fanon (2008) argumenta que os povos colonizados devem se posicionar em relação à linguagem e, no contexto atual, as redes sociais podem ser ferramentas estratégicas para disseminar práticas educativas antirracistas e antissexistas.


Considerando que o racismo é uma neurose cultural brasileira (GONZALEZ, 1984), a página Negritude em Letras surgiu como como uma forma de promover a conscientização e a educação antirracista para diversos públicos por meio do ciberativismo, pois as redes sociais possibilitam a criação de espaços de reflexão e ação coletiva, onde narrativas e experiências invisibilizadas podem ser compartilhadas e valorizadas.


Negritude em Letras e as redes sociais na cultura contemporânea


Malta e Oliveira (2016) destacam que as novas plataformas midiáticas e o advento das tecnologias da informação têm impulsionado novas formas de sociabilidade. Desde o final do século XX até o século XXI, testemunhamos a consolidação de uma sociedade conectada por redes sociais, nas quais diversas e numerosas discussões sociais vêm sendo estabelecidas e desenvolvidas. A respeito das redes sociais:


A expressão “redes sociais na internet” vem sendo utilizada, tanto na mídia quanto em estudos acadêmicos, para se referir indistintamente a tipos de relações sociais e de sociabilidade virtuais que se diferenciam em dinâmicas e propósitos. De um lado, há uma ampla variedade de “comunidades virtuais” e os chamados sites de redes sociais (Social Network Sites – SNSes, em inglês), cuja existência e desenvolvimento são contingenciados pelo ambiente tecnológico em que são construídos. De outro, inúmeras experiências de redes sociais constituídas nas práticas cotidianas e nas lutas sociopolíticas do “mundo real”, que utilizam a Internet como um ambiente de interação e/ou um espaço público complementar (AGUIAR, 2007, p.1).

Lévy (1993) destaca que estamos passando por uma reconfiguração social devido às mudanças constantes e significativas trazidas pelas evoluções tecnológicas em nosso cotidiano. Essa transformação é irreversível e ocorre em diferentes ritmos ao redor do mundo, sendo mais rápida em algumas regiões e mais lenta em outras. Eventualmente, todos os grupos sociais experimentarão alterações na organização de suas relações. Castells (1999) se refere a esae novo contexto social como “sociedade do conhecimento” ou “sociedade da informação”.


A interação no ambiente digital ocorre de maneira multimodal4, mas é predominantemente por meio da palavra. Segundo Orlandi (1999), tomar a palavra é um ato social. O ser humano é considerado um sujeito de interação, inserido em uma realidade social, e a linguagem é vista como transformadora, sendo entendida como uma “produção social geral”.


A página Negritude em Letras, presente no Instagram, TikTok e YouTube, é um espaço virtual dedicado à valorização e promoção da cultura e da literatura afro-brasileira. Seu objetivo é disseminar conhecimento sobre a história, as lutas e as contribuições das comunidades negras no Brasil, além de fomentar a educação antirracista. Por meio de vídeos curtos e posts, são abordadas temáticas étnico-raciais com enfoque especial na representatividade e na produção intelectual de autores negros. Ademais, a página cria um ambiente de diálogo e reflexão crítica sobre questões como racismo, desigualdade, resistência e justiça social.


O propósito da leitura como meio de reflexão sobre si mesmo e o mundo tem sido amplamente observado nas redes sociais, com impacto também no mundo offline. De acordo com Petrucci (1999), enquanto a escrita existir, a leitura também persistirá.


É evidente que, ao longo da história, houve um aumento nas finalidades, nos usos (e, sem dúvida, nos usuários) e nas formas da escrita (JUNGER, p. 16, 2016). Uma dessas finalidades é a mobilização e o empoderamento de comunidades discursivas4 “Multimodal” refere-se ao uso de múltiplos modos ou canais para a comunicação e expressão de informações. No contexto da interação digital, multimodalidade implica o uso combinado de diferentes formas de comunicação, como texto, imagem, som, vídeo e gráficos, para transmitir uma mensagem ou facilitar a interação. Por exemplo, uma plataforma de redes sociais pode permitir a postagem de texto, fotos, vídeos e áudio, oferecendo uma experiência de comunicação rica e variada. específicas.


A página Negritude em Letras foi criada por mim, professora da educação básica técnica e tecnológica, após a finalização do meu doutorado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde analisei o impacto de produções discursivas veiculadas na página Blogueiras Negras.


A partir dos casos de racismo que enfrento e acolho no meu cotidiano como mulher negra e docente, percebi que, dentro e fora do espaço escolar, o racismo tem sido propagado de inúmeras formas e naturalizado, o que exige uma mudança de cultura que só pode ser promovida por meio de iniciativas educativas contínuas e inclusivas. Um exemplo disso é um dos primeiros vídeos da página que viralizou, abordando como as obras infantis do autor Monteiro Lobato perpetuam mensagens racistas ao empregar termos como “macaca de carvão” e “beiçuda”, ao referir-se a Tia Nastácia.


A motivação para esse vídeo surgiu porque percebi que as obras do autor eram consumidas sem que essas falas fossem problematizadas, especialmente em um contexto em que os discursos de ódio e os casos de racismo têm crescido. Utilizar o espaço virtual, que tem um amplo alcance, para problematizar trechos que reproduzem racismo na obra de Lobato foi importante para muitas pessoas que assistiram ao vídeo e comentaram, relatando suas próprias experiências e reflexões sobre o impacto dessas mensagens racistas em suas vidas e na sociedade.


A discussão provocada pelo vídeo destacou a necessidade urgente de revisitar e reavaliar o conteúdo literário que é oferecido às crianças, promovendo uma educação que valorize a diversidade e combata o racismo de maneira efetiva. Além disso, reforçou a importância de espaços como a página Negritude em Letras para disseminar conhecimento, promover debates e incentivar uma postura crítica frente às manifestações racistas presentes em diversas mídias.


Assim, as mídias digitais permitem novas configurações e trocas comunicacionais, possibilitando formas alternativas de produção em relação à mídia de massa. Segundo Paz e Junqueira (2016), essas mídias facilitam a criação e disseminação de narrativas que vão além da informação massificada, abrangendo novas e diversas discussões sobre temas como gênero, etnicidade, raça e cultura.


O ciberativismo como forma de combate ao discurso de ódio e a linguagem codificada do racismo nas redes sociais


Milhomens (2009) define “ciberativismo” como o uso de tecnologias digitais de informação e comunicação para a mobilização e o enfrentamento político, social e/ou cultural. Segundo ele, o ciberativismo emergiu com a popularização da internet no início dos anos 1990. A rápida disseminação de informações e a capacidade de articulação e velocidade desse meio capturaram a atenção e o interesse de vários segmentos da sociedade, incluindo ativistas de diversas causas.


Vegh (2003) define o ciberativismo como o uso da internet por movimentos com motivações políticas. Ele identifica três principais categorias de atuação no ativismo digital: a primeira é a conscientização e promoção de uma causa, disseminando informações e eventos que rompem com o controle dos meios de comunicação tradicionais, oferecendo uma alternativa informativa; a segunda é a organização e mobilização online, direcionada para uma ação específica; e a terceira é a ação e reação, chamada de “hacktivismo” ou “ativismo hacker”, que envolve apoio online, invasão ou congestionamento de sites.

É exatamente nas duas primeiras categorias de atuação que a página Negritude em Letras se insere, utilizando tecnologias digitais para promover a educação antirracista, conscientizar sobre questões sociais e culturais, além de mobilizar a comunidade para ações significativas.


Um dos vídeos com maior visualização na página Negritude em Letras é o que inicio perguntando: “Será que o pior racista é o próprio negro?” Nele, exponho algumas reflexões sobre como o racismo promove o auto-ódio entre pessoas negras e como “saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrado em sua identidade, confundido em suas perspectivas, submetido a exigências, compelido a expectativas alienadas” (SOUZA, 2021, p. 46). Logo, reconhecer-se como negro a partir de um olhar de orgulho não é fácil em uma sociedade em que a branquitude impera.


Por mais que hoje as pessoas se policiem quanto aos termos que utilizam com pessoas negras, o racismo também ocorre de forma mais sutil. Um exemplo é a imposição de padrões de beleza veiculados na mídia. Quantas meninas, no início da década de 1990, não desejavam ser as paquitas? Quantas meninas negras, ao verem essas representações, não se sentiram inadequadas ou insuficientes?

Essa pressão por um padrão estético eurocêntrico contribui para o auto-ódio, fazendo com que muitas pessoas negras tentem se adaptar a esses padrões para serem aceitas. Esse processo de embranquecimento, seja por meio de alisamentos capilares, uso de maquiagens que clareiam a pele ou até cirurgias plásticas, é uma forma de violência silenciosa que perpetua o racismo.


Segundo Gonzalez (1984), o racismo pode apresentar taticamente duas formas para manter a “exploração/opressão”: o racismo aberto e o racismo disfarçado. A primeira forma é encontrada, principalmente, nos países de origem anglo-saxônica, e a segunda, nas sociedades de origem latina. No racismo disfarçado, “prevalecem as ‘teorias’ da miscigenação, da assimilação e da ‘democracia racial’”, que reforçam a crença construída historicamente sobre a miscigenação e alimentam o mito da inexistência do racismo em nosso país.


No racismo latino-americano, para Lélia Gonzalez (1988, p.73), a alienação é alimentada por meio da ideologia do branqueamento, cuja eficácia está nos efeitos que produz: “o desejo de embranquecer (de ‘limpar o sangue’, como se diz no Brasil) é internalizado, com a simultânea negação da própria raça, da própria cultura”. Esse desejo de embranquecer tem como objetivo inserir-se na sociedade para galgar mais oportunidades e para não se constituir em um alvo de violência.


Apesar de o Brasil aparentemente se engajar no combate ao racismo por meio de um amplo discurso antirracista manifestado de maneira coletiva no século XXI, casos de racismo continuam a ser amplamente divulgados pela mídia, com frequência crescente, principalmente no âmbito escolar.

Um dos casos de racismo em escola que gerou mais repercussão ainda no início de 2024, por conta da situação absurda, foi o de uma estudante negra de 13 anos que foi pisoteada, xingada de “macaca”, “cabelo de bombril”, “capacete de astronauta”. O pior é que a escola não encarou a situação como racismo. Eu publiquei um vídeo sobre esse caso, tecendo reflexões destinadas a responsáveis e educadores sobre como é crucial reconhecer e enfrentar o racismo institucionalizado.


No vídeo, discuto a importância de uma postura ativa por parte das instituições de ensino na identificação e no combate ao racismo. Abordo a necessidade de promover uma educação antirracista que não apenas condene tais atos, mas também ofereça apoio às vítimas e implemente políticas preventivas. Ressalto que é fundamental que educadores sejam capacitados para lidar com essas situações e que haja um compromisso genuíno com a criação de um ambiente escolar seguro e inclusivo para todos os alunos.


A página Negritude em Letras, a partir de inúmeros relatos de caso como esse, tem se tornado um canal essencial para denúncia e conscientização sobre a importância de uma educação antirracista, contribuindo para uma sociedade mais justa e igualitária.


Em outro caso, uma professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) foi alvo de racismo em sala de aula ao ser confrontada por um aluno branco que disse que ela não sabia qual era o lugar dela e que “continuaria sendo perseguida e odiada”. No vídeo sobre esse caso, abordei a necessidade de enfrentar o racismo institucional dentro das universidades, discutindo como esses espaços, que deveriam ser de inclusão e conhecimento, ainda reproduzem comportamentos racistas.


No vídeo, enfatizei a importância de políticas institucionais que protejam os professores e alunos negros, garantindo um ambiente acadêmico seguro e respeitoso. Também ressaltei a necessidade de ações educativas que promovam a conscientização e a empatia entre os estudantes, assim como a responsabilização, preparando-os para conviver em uma sociedade diversa e plural.


Extremismo e racismo nas redes sociais e no ambiente escolar

A internet tem sido muito importante para os grupos marginalizados, pois foi ali que essas pessoas entenderam que poderiam existir e ter voz, saindo do estado de invisibilidade.


Vivemos hoje uma época limítrofe, na qual toda a antiga ordem das representações e dos saberes oscila para dar lugar a imaginários, modos de conhecimento e estilos de regulação social ainda pouco estabilizados. Assim, “vivemos um desses raros momentos em que, a partir de uma nova configuração técnica, quer dizer, de uma nova relação com o cosmos, um novo estilo de humanidade é inventado (LÉVY, 1993, p. 17).” Embora as mídias digitais sejam uma ferramenta valiosa para a difusão de visões descentralizadoras e não hegemônicas, elas também têm sido utilizadas com propósitos de ofender, difamar e atacar certos grupos, como mulheres, negros e a comunidade LGBT.


Nos últimos anos, o Brasil enfrentou desafios significativos em diversas áreas. Na esfera política, movimentos conservadores da extrema direita tornaram-se mais visíveis. Esse crescimento do extremismo no país reflete a situação internacional, na qual discursos de ódio e preconceito são frequentemente justificados sob o pretexto da liberdade de expressão.


De acordo com dados da Safernet5, crimes envolvendo discurso de ódio na internet cresceram 67,7% em 2022, o que evidencia a necessidade de discursos que não naturalizem tais posicionamentos, que ferem os direitos humanos, e que promovam conscientização e respeito pela diversidade. Isso reforça a importância de ações educacionais e políticas que incentivem o uso responsável das mídias digitais e protejam os direitos e a dignidade de todos os indivíduos.


Nesse contexto, uma forma de manifestação racista, realizada de maneira velada e naturalizada, tem se propagado através dos discursos de influenciadores, líderes políticos e religiosos. Esse tipo de racismo está sendo combatido ativamente pela página Negritude em Letras.


5 SAFERNET BRASIL. Crimes na Web. Disponível em: https://new.safernet.org.br/content/crimes-na-web.


López (2015) destaca a estratégia discursiva do “apito de cachorro”, que se refere ao uso de linguagem codificada ou eufemismos que, embora pareçam inofensivos para a maioria das pessoas, são entendidos por um grupo específico como mensagens racistas ou discriminatórias. Líderes políticos e religiosos frequentemente utilizam essa técnica para comunicar ideias racistas de forma dissimulada, permitindo-lhes mobilizar apoio de simpatizantes sem atrair críticas generalizadas. Esse tipo de discurso permite que tais líderes mantenham uma fachada de respeito, enquanto disseminam preconceitos e ódio, dificultando a identificação e o combate direto dessas mensagens insidiosas.


Segundo López (2015), esses apelos raciais codificados permitem que figuras públicas promovam agendas discriminatórias sem enfrentar diretamente a acusação de racismo. Um exemplo é a campanha de Nixon, que usou linguagem codificada com termos como como “lei e ordem” e “guerra às drogas”, percebidos pelo público como mensagens direcionadas contra comunidades negras, sem mencionar explicitamente a raça. Outro exemplo é o slogan de campanha de Trump, Make America Great Again, que evocava um passado idealizado que muitos associaram a uma época de maior domínio branco e segregação racial. Embora a frase não mencione a raça, ela ressoa com eleitores que desejam um retorno a uma ordem social anterior às conquistas dos direitos civis.


No contexto brasileiro, políticos conservadores de extrema direita, principalmente nas redes sociais, propagam discursos semelhantes. Um exemplo é o de um vereador do Partido Liberal (PL) que acusou o livro Meninas Sonhadoras, Mulheres Cientistas, que aborda a trajetória de mulheres de destaque, em sua maioria negras, de promover doutrinação ideológica e apologia ao aborto. Essa retórica gerou pânico moral e reforçou preconceitos, deslegitimando a importância de figuras como Marielle Franco e outras mulheres negras retratadas na obra, perpetuando a invisibilidade de suas contribuições na ciência e na história.


Para apresentar uma perspectiva contrária à narrativa criada pelo político, publiquei um vídeo explicando a estratégia utilizada pelo vereador e como ela ajuda a perpetuar preconceitos e discriminações, especialmente quando ele se refere a Marielle Franco. A retórica do vereador utiliza o “efeito do apito de cachorro” ao acusar o livro de “apologia ao aborto” e de doutrinação sem apresentar provas, gerando rejeição automática e reforçando preconceitos e discriminações contra a vereadora.

Nilma Lino Gomes (2007) destaca a importância de um currículo escolar que reflita a diversidade cultural e étnica do Brasil, incluindo as histórias de grupos historicamente marginalizados. A proibição de livros, incentivada por extremistas políticos, limita o acesso a diversas perspectivas, como discutido no documentário The ABC of Book Banning6.


O vídeo teve um impacto positivo, conscientizando os seguidores sobre a importância de reconhecer e combater essas formas dissimuladas de racismo. Além disso, fomentou discussões importantes sobre a necessidade de políticas educacionais inclusivas e o acesso ao conhecimento. As discussões resultaram em uma maior mobilização da comunidade para apoiar iniciativas antirracistas e promover a diversidade e a inclusão nas escolas e demais instituições sociais.


6 The ABC of Book Banning (O ABC do Banimento de Livros, em tradução livre) é um curta-metragem documental de 2023, dirigido por Sheila Nevins, co-dirigido por Trish Adlesic e Nazenet Habezghi, e produzido por Trish Adlesic. O filme estreou no Festival de Cinema de Woodstock em 30 de setembro de 2023. Ele explora a prática controversa de banir livros ao longo da história e suas implicações para a liberdade de expressão. Sheila Nevins e sua equipe investigam os impactos culturais, sociais e políticos da censura literária, oferecendo uma análise crítica das motivações por trás do banimento de obras literárias e dos debates duradouros que ele provoca.


No entanto, um dos principais focos da página está em abordar as consequências e propor caminhos para superarmos o racismo na escola. É inegável que, no Brasil, temos testemunhado um aumento significativo de ataques armados a escolas. Jovens, movidos pelo ódio, invadem instituições de ensino com a intenção de matar ou ferir inimigos e, eventualmente, acabam mortos ou presos. Muitos desses jovens fazem parte de grupos em redes sociais que disseminam ideias extremistas. Um aspecto particularmente perigoso no cenário atual é a forma como a extrema direita utiliza o humor para espalhar discursos de ódio direcionados às minorias sociais, prática comum no ambiente escolar e muitas vezes encarada como uma brincadeira. Nesse contexto, os discursos de ódio ganham força e, muitas vezes, são autorizados pelas escolas sob o disfarce de humor.


O discurso de ódio se caracteriza pelas manifestações de pensamentos, valores e ideologias que visam inferiorizar, desacreditar, e humilhar uma pessoa ou um grupo social, em função de características como gênero, orientação sexual, filiação religiosa, raça, lugar de origem ou classe (TRINDADE, 2022, p. 17).

Por isso, vários vídeos foram produzidos na página Negritude em Letras, destacando casos de racismo recreativo, definido por Moreira (2019) como o uso do humor para mascarar discursos de ódio e preconceito. Esses vídeos possibilitaram uma maior conscientização sobre como essas práticas são prejudiciais e reforçam estereótipos negativos, incentivando a sociedade a reconhecer e combater esse tipo de racismo disfarçado.


Em junho de 2023, realizei uma live com o Coletivo Antonieta de Barros, grupo que propõe um protocolo antirracista para as escolas, visando prevenir e coibir episódios de racismo nas instituições educacionais. Esse encontro foi de extrema importância, pois proporcionou um espaço para que várias professoras negras compartilhassem relatos de violência racial vivenciados no ambiente escolar. Exemplos desses testemunhos incluem ver o termo “macaca” escrito ao lado de seus nomes em murais, alunos imitando sons e gestos de macaco ao avistarem uma docente, e mensagens em grupos de WhatsApp com falas como: “vou escravizar e trocar fulana por dois sacos de farinha”.


Durante a live, o coletivo abordou a importância de um protocolo antirracista e a responsabilidade das instituições de ensino frente a esses casos. Eles destacaram que as escolas devem adotar medidas eficazes para combater o racismo e garantir um ambiente seguro e inclusivo para todos os alunos e educadores.


Após a live, a página Negritude em Letras realizou uma série de vídeos colaborativos com o coletivo, destacando a proposta do protocolo criado por elas como um caminho para combater o racismo nas escolas.


O impacto dessa iniciativa nos seguidores da página foi significativo, pois promoveu uma conscientização mais profunda sobre o racismo recreativo e a importância de um protocolo antirracista nas escolas. Muitos seguidores relataram que passaram a reconhecer comportamentos e discursos racistas disfarçados de humor em seus próprios ambientes, o que levou a um aumento nas discussões sobre como combater essas práticas prejudiciais.


Além disso, a série de vídeos gerou um engajamento maior na página, com os seguidores compartilhando suas próprias experiências e relatos de racismo nas escolas, bem como participando ativamente de debates sobre estratégias eficazes para promover a inclusão e combater a discriminação racial. Essa troca de experiências e informações fortaleceu a comunidade em torno da página, criando uma rede de apoio e solidariedade entre os seguidores.


Considerações finais

Os casos analisados, como a disseminação do racismo recreativo nas escolas e o uso de discursos de ódio disfarçados de humor, revelam a complexidade e a sutileza do racismo em diversas esferas da sociedade. As estratégias discursivas, como o “apito de cachorro”, usadas por líderes políticos e influenciadores para disseminar preconceitos, demonstram a necessidade urgente de promover discursos que valorizem a diversidade, a inclusão e o respeito pelos direitos humanos.


Diante disso, é crucial continuar utilizando as mídias digitais para amplificar vozes marginalizadas, promover a educação antirracista e combater o racismo em todas as suas formas.


A luta contra o racismo requer um esforço coletivo e contínuo, e o ciberativismo se apresenta como uma ferramenta essencial nessa jornada por uma sociedade mais justa e igualitária.



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