Vias, Vielas e Vozes da América Latina: um continente banhado por África
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- há 3 dias
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Caminos, callejones y voces de América Latina: un continente bañado por África
Alex Pegna Hercog¹

Resumo
Em toda a América Latina, diversas iniciativas provocam o debate sobre as múltiplas identidades do ser “afrolatino”. Em muitos países, essa discussão é atravessada pela afirmação de uma existência afrodescendente historicamente negada. Esse reconhecimento é fundamental para a formulação de políticas públicas com o objetivo de assegurar direitos a uma população que, em todo o continente, continua sendo atingida pelo racismo construído ao longo de séculos de escravidão.
Assim, o presente artigo pretende compartilhar as experiências pessoais de seu autor pela América Latina, bem como os resultados da pesquisa “Vozes Latinas”, realizada junto ao coletivo Intervozes, para apresentar organizações que, por meio da cultura e da comunicação, constroem resistências, incidências e vivências para os povos afrodescendentes em seus respectivos países.
Palavras-chave: Comunicação; Cultura; América Latina; Afrolatina.
Resumen
En toda América Latina, diversas iniciativas provocan un debate sobre las múltiples identidades del ser “afrolatino”. En muchos países, esta discusión está permeada por la afirmación de una existencia afrodescendiente históricamente negada. Este reconocimiento es fundamental para la formulación de políticas públicas con el objetivo de garantizar derechos a una población que, en todo el continente, continúa afectada por el racismo construido a lo largo de siglos de esclavitud.
Así, este artículo pretende compartir las experiencias personales de su autor en América Latina y los resultados de la investigación “Vozes Latinas”, realizada junto al colectivo Intervozes, para presentar organizaciones que, a través de la cultura y la comunicación, construyen resistencias, incidencias y vivencias para los afrodescendientes en sus países.
Palabras-Clave: Comunicación; Cultura; América Latina; Afrolatina.
¹ Baiano, mochileiro, comunicador popular e afrolatino. Formado pelas ruas, estradas e águas da América Latina. Graduado em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade do Estado da Bahia. Integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.
De pochete ou de mochila: um passeio pela América do Sul
Em 2014, coloquei a pochete na cintura e a mochila nas costas e percorri a América do Sul. Enquanto o planeta olhava para o Brasil, que realizava a Copa do Mundo de Futebol Masculino, eu mirava as vias e vielas da América Latina, sempre com O Livro dos Abraços, do uruguaio Eduardo Galeano, debaixo do braço, e meu pagodão baiano nos ouvidos.
“Na Argentina não existem negros”, “O Chile é a Europa latina”, “No Peru e na Bolívia só tem índio” foram algumas das frases racistas que ouvi pelo caminho.
Quanto mais eu caminhava, mais a saudade apertava. Não de minha mãe, nem dos amigos, com quem sempre me comunicava. Mas lembro do aperto no peito pela falta que eu sentia de Kizumba, meu cachorro, que completava 15 anos. E do nó na barriga que, sem feijão e acarajé, me deixava fraco.
Lembro de percorrer as feiras de Guaiaquil para providenciar ingredientes e preparar uma feijoada para a família equatoriana que me acolhia. A bandeja paisa que comi assim que desci na rodoviária de Bogotá me levou ao céu — tanto que o pabellón criollo, em Caracas, já nem me deixava tão eufórico.
Foi a partir daquele feijão no Equador que eu senti que estava chegando na África latina. A Colômbia não me deixou dúvidas. Sem falar em Cuba, quando percebi que estava em Salvador — ou em Cali — ou em Mindelo.
O que o estômago não sente, o coração não vê. Talvez por isso eu não tenha percebido que havia negros e negras por todo o continente (e não apenas da costa equatoriana em diante).
Em 2022, me aventurei pela Argentina, de Córdoba até Ushuaia — já com dendê e feijão-fradinho na mochila. Em 2023, com minha companheira Rafa Dornelas², experimentamos a Colômbia e pousamos em Cali — com estoque para fazer quantos acarajés fossem necessários, além da farinha e da cachacinha mineira.
Em 2024, visitamos o Chile. Nosso amigo Boris, de Santiago, tem um pé na Bahia e algumas garrafinhas de dendê em casa, o que nos poupou o excesso de bagagem.
Também neste ano, realizei a pesquisa Vozes Latinas³, a partir do coletivo do qual faço parte, o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. Pude mapear mídias e organizações latino-americanas, cujas experiências serão apresentadas neste artigo.
As andanças e a pesquisa não me deixaram dúvidas: existe África em toda a América Latina. Assim, compartilho um pouco da minha experiência nos países hermanos e aproveito para passear virtualmente por diversas iniciativas que fazem do corpo, da comunicação e da cultura instrumentos de luta que afirmam uma existência negada, reivindicam direitos e constroem tecnologias para adiar o fim do mundo (KRENAK, 2019).
Identifícate! Orgullosamente afro!
Em 2006, Ali Kamel, então diretor-geral de jornalismo do Grupo Globo — principal empresa que compõe o oligopólio midiático no Brasil (INTERVOZES, 2023) —, publicou o livro Não Somos Racistas. A sinopse afirmava que a obra era resultado do “espanto” do jornalista, que “começou a perceber que a política de cotas proposta pelo governo Lula dividiria o Brasil em duas cores, eliminando assim todas as características de nossa miscigenação”.
O argumento, que já era motivo de piada à época, tornou-se ainda mais engraçado quase duas décadas depois. Mas, apesar do discurso do famigerado livro ainda ecoar em grupos de terraplanistas, uma coisa é certa: nunca vingou a narrativa de que não existem negros no Brasil.
No entanto, a invisibilização negra em diversos países latino-americanos perdura até hoje. Enquanto no Brasil se discutem políticas públicas afirmativas para avançar na inclusão da população afrodescendente em espaços historicamente negados, em muitos países vizinhos há uma luta para dizer: “sim, nós existimos”.
No Chile, por exemplo, somente em 2019 foi promulgada a Lei nº 21.151, que reconhece oficialmente “o povo tribal afrodescendente chileno”. Na Argentina, o Dia Nacional dos Afro-Argentinos e da Cultura Afro foi oficializado em 2013, a partir da Lei nº 26.852.
Pode parecer pouco, mas a existência de leis e datas que afirmam a existência de descendentes de africanos em nações latino-americanas é um passo fundamental para incidir sobre o Estado em busca de políticas públicas inclusivas, a exemplo das cotas raciais nas universidades.
Uma das conquistas decorrentes desse reconhecimento oficial é a inclusão da categoria “negro/a” ou “afro” nos Censos de diversos países. A experiência brasileira mostra que a existência de dados raciais é fundamental para direcionar políticas públicas e denunciar o racismo vivido diariamente — visível nas estatísticas sobre violência, exclusão e pobreza.
Por isso, meu amigo Boris Ramirez, membro do Carnaval de la Legua⁴ em Santiago e integrante da Guerrilla Marika⁵, esperava ansiosamente a visita da pesquisadora do Censo. Pela primeira vez, ele pôde se declarar afrochileno. Brindamos um vinho para comemorar! Sua experiência de anos morando no Brasil foi fundamental para esse autorreconhecimento — algo que, segundo ele, ainda não é regra na sociedade chilena, um país que apenas recentemente vem ampliando os debates sobre questões como origem, fenótipo e “o que é ser negro ou negra no Chile?”.
Diante da importância dessa discussão e do ineditismo da categoria “afro” no Censo, algumas organizações buscaram mobilizar a população para a autoidentificação.
A Colectiva Luanda promoveu a campanha AfroIdentifícate, apontando o negacionismo criado a partir da abolição da escravidão, momento em que foram “eliminados os dados censitários de pessoas afrodescendentes, com o objetivo de projetar uma república mais parecida com a europeia”, como destacou o material de divulgação da campanha.
Em janeiro de 2024, durante a Festa de Reis — ou Páscoa dos Negros —, as “rainhas magas”⁷ participaram dos festejos distribuindo informativos sobre a campanha. Em março, durante o Carnaval Afro, a coletiva ocupou as ruas bailando pela afroidentificação. Ao longo de toda a campanha, também foram realizadas oficinas e publicações nas redes sociais para debater a existência afrochilena.
Além da Colectiva Luanda, a coletiva Kilombo Negrocentricxs também buscou incidir no Censo chileno, promovendo a campanha Orgullosamente Afro.
Foi realizada uma forte divulgação nos espaços públicos, especialmente por meio de outdoors digitais nas estações de metrô, além de busdoors. Adesivos foram distribuídos, cartazes fixados em vias públicas e rodas de diálogo presenciais foram realizadas.
No meio digital, diversas publicações nas redes sociais destacavam a importância da autoidentificação. Também foi produzido o podcast Tertulias Negras, que abordou temas como a história da população afrochilena, a estética afro e o afrofeminismo.
Além do Chile, outros países contaram com mobilizações durante a realização do Censo. É o caso de El Salvador, onde a fundação Afrodescendientes Organizados Salvadoreños (AFROOS) promoveu, em 2024, diversas ações para fomentar a autoidentificação, a exemplo da exposição artística Rostros Afrosalvadoreños¹², que levou ao Museu Nacional de Antropologia pinturas de rostos de pessoas afrodescendentes do país centro-americano.
No resultado divulgado pelo Censo 2024, 0,4% dos salvadorenhos se declararam afrodescendentes, um significativo crescimento diante dos 0,1% registrados no último levantamento, em 2007.
Nas redes sociais da AFROOS, diversos comentários revelam que o autorreconhecimento ainda é um desafio.
“Como dizer se uma pessoa é afrodescendente, uma vez que seus antepassados foram misturados com indígenas, espanhóis ou afros?”, “Meu pai é obviamente afrodescendente, mas eu sou branca. Como devo identificar-me?” são alguns dos questionamentos dos seguidores da organização.
Na publicação, a representante Ana Yency afirma que “não estamos pedindo que se reconheça como ‘africano’, mas que busque identificar as suas origens”, destacando que, em El Salvador, pouco se debate a existência de pessoas descendentes de negros e negras levadas ao país durante o período da escravidão.
Já na Bolívia, foi realizada a campanha Soy La Voz de Mi Pueblo, promovida pela Asociación de Pueblos Indígenas y Afrobolivianos de Santa Cruz de la Sierra (APISACS), pela Capitanía Guaraní Andrés Ibáñez, pela Central Ayorea Nativa del Oriente Boliviano (CANOB) e pelo Apoyo Para el Campesino-Indígena del Oriente Boliviano (APCOB).
A ação contou com um ato público de lançamento e, durante o primeiro semestre de 2024, mobilizou rádios e a imprensa locais de Santa Cruz de la Sierra sobre a importância da autoidentificação de indígenas e afrobolivianos para a formulação de políticas públicas.
Mídias negras
As campanhas pela autoidentificação afrodescendente têm em comum a necessidade de seguir debatendo conceitos e subjetividades que constroem essas identidades negras específicas em cada sociedade, ainda que a origem da presença negra na América seja a mesma: o sequestro de africanos e africanas para trabalharem em regime de escravidão nas colônias europeias do continente.
Assim, debater as particularidades de cada país é fundamental para o processo de construção de uma identidade afrolatina. Nesse sentido, destacam-se mídias lideradas por pessoas negras, que colocam a questão racial no centro da pauta.
Desde o Equador, o coletivo Mujeres de Asfalto criou a plataforma digital batizada de Amandla, que se define como uma “aposta comunicacional comunitária feminista que pensa, relata e atua desde os territórios”.
O grupo é composto majoritariamente por mulheres negras e, por meio do ambiente digital, produz artigos que analisam temas como o contexto político equatoriano. O projeto afirma querer ser uma “resposta às ausências e estigmatizações nos relatos e discursos comunicacionais”, em um cenário marcado pela “falta de um meio de comunicação que toque em temas que nos transversalizam e que não abordem nossas problemáticas de maneira isolada ou esporádica”.
Em 2024, a Amandla anunciou a realização de um curso de formação presencial para a “Escola de Comunicação Comunitária Bochinchelab”, voltado às juventudes de Esmeraldas, região que concentra comunidades negras e que, nos últimos anos, viu eclodir a violência provocada pelo crescimento do narcotráfico.
Em 2023, Amandla, Mujeres de Asfalto e Miradas Negras organizaram a 3ª edição do Festival Cine Negro Cimarrón, evento que contou com oficinas, rodas de diálogo, apresentações artísticas, lançamento de livros e exibição de filmes voltados à promoção do debate racial.
A Amandla também se soma a outras iniciativas antirracistas e realiza cobertura de atos, a exemplo da marcha em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres Negras, Afrolatinas, Afrocaribenhas e da Diáspora.
Em seu canal no YouTube, o projeto publica conteúdos próprios, como a série #LunesFeministas, em que entrevista mulheres negras sobre diversas pautas, especialmente aquelas relacionadas à realidade da cidade equatoriana de Esmeraldas.
A pesquisa Vozes Latinas também identificou coletivos que apostam no formato de podcast para pautar questões raciais e suas transversalidades.
No Equador, o coletivo de mulheres La Movida Antirracista produziu o podcast Palabras Negras. Em seu canal, o projeto afirma ter como objetivo “visibilizar outras narrativas/histórias do povo afroequatoriano e de pessoas negras e afrodescendentes que difundam/promovam o pensamento negro”.
Em sua primeira temporada, lançada em 2024, o podcast contou com cinco episódios, que abordaram temas como feminismos, aborto, literatura, comédia, diversidade sexual e de gênero — sempre a partir de uma perspectiva racial.
Outro exemplo é o podcast Afrochingonas, produzido por três jovens afromexicanas, que abordam temas diversos como identidade afro, arte, masculinidades, relacionamentos, migração, saúde mental de ativistas, entre outras questões cotidianas e estruturais.
Criado em 2020, o projeto vem ousando experimentar diferentes formatos: de conversas iniciais entre amigas a entrevistas com convidadas; de publicações exclusivamente em áudio a versões em videocast; de gravações em estúdio ou em casa a idas às ruas para dialogar com transeuntes.
O dinamismo da Afrochingonas é perceptível em suas redes sociais e nas performances de suas criadoras. Duas delas, Scarlet Estrada e Marbella Figueroa²⁰, conheci durante um encontro de organizações na Guatemala.
Chamou-me a atenção a personalidade delas ao se posicionarem criticamente diante de questões políticas sensíveis, como o feminismo. Mesmo atuando em espaços comuns e, muitas vezes, ao lado de organizações que se reconhecem feministas, a Afrochingonas refuta para si essa classificação, por apontar a construção histórica do feminismo alinhado à branquitude e a lugares de privilégio.
No episódio Somos Feministas, lançado em 2021, o podcast apresenta uma das reflexões mais escutadas do projeto. Em 2024, elas atualizaram suas análises no episódio Que no, no somos feministas.
Além do podcast, o coletivo mexicano possui um blog²³, no qual publica artigos que abordam o debate racial em diversos países da América Latina. O diferencial é que a Afrochingonas também reproduz em áudio o conteúdo dos textos, com peças que duram, em média, sete minutos.
Outro exemplo criativo, vindo do Peru, é o projeto Afrotalks, desenvolvido por participantes de formações realizadas pela organização Ashanti Perú — Red Peruana de Jóvenes Afrodescendientes.
O podcast aborda experiências racistas sofridas por jovens afroperuanos, em episódios com cerca de um minuto de duração — formato que pode ser facilmente difundido em aplicativos de mensagens, popularizando, assim, seu alcance.
Na Colômbia, destaca-se o podcast Voces de la Rochela, produzido pelo Colectivo Mata’É Pelo. Em suas redes sociais²⁶, o coletivo se define como “mulheres afroguajiras gerando espaços de transformação social para a população Afro”.
O departamento de La Guajira, fronteiriço à Venezuela, é palco de um racismo ambiental²⁷ que sacrifica as populações negras e indígenas — a exemplo das comunidades Wayúu, afetadas pela instalação de indústrias eólicas.
O podcast Voces de la Rochela foi realizado por “mulheres cimarronas” da região colombiana. Em sua primeira temporada, que contou com 19 episódios, foram abordados temas como saúde, jornalismo, gestão cultural e carnaval.
Entre outubro de 2023 e junho de 2024, diversas mulheres foram entrevistadas para refletir sobre questões a partir de seus territórios. A exemplo do debate sobre o Censo, a reflexão sobre a identidade afrolatina atravessa essas experiências.
No programa de divulgação da estreia do podcast²⁸, um personagem comenta:
“Às vezes me fazem comentários como: ‘você é muito branco para ser afro’. Os militantes me chamam a me autorreconhecer, mas, em casa, nenhuma pessoa fazia referência a esse tema. Meu avô foi a máxima imagem para eu reconhecer de onde venho e para onde devo ir.”(MATA’É PELO. Trailer. Spotify, out. 2023.)
Ondas latinas
Além de Scarlet e Marbella, da Afrochingonas, também conheci no encontro da Guatemala Jorge Rafael Ramírez, representante da Ashanti Perú.
Jorge fala português, do tempo em que morou e estudou em Santa Catarina. Tem bagagem sobre questões raciais no Brasil e leva esse debate adiante desde o Peru, um país de população majoritariamente indígena e “mestiça” que, a exemplo do Chile e da Argentina, também invisibiliza sua população afroperuana.
A Ashanti possui uma biblioteca com publicações sobre o processo histórico da população afrodescendente no Peru, além de reflexões e contribuições para a elaboração de políticas públicas.
Durante a realização do último Censo no país, em 2017, a Ashanti promoveu a campanha Afroidentifícate, fomentando o debate sobre a identidade afroperuana e a importância da autoidentificação como “negro, mulato, moreno, povo afroperuano ou afrodescendentes”, com o objetivo de gerar indicadores que “sirvam de base para a elaboração de planos integrais de desenvolvimento, formulação de programas e políticas públicas com inclusão social”, conforme afirmam os materiais da campanha.
Essa iniciativa se soma a outras ações realizadas pela Ashanti Perú para fomentar o debate racial no país, a partir de sua escola de formação.
Além do podcast Afrotalks, as juventudes da organização também realizaram o projeto AfroTv Perú, com produções audiovisuais e séries como Por la Ruta Afro, Voces Afro e Afroemprendedores.
Na Colômbia, outro exemplo de projeto audiovisual é o Mejoda³¹. Além de produções de curta-metragens, o coletivo também realiza cursos e formações, a exemplo das oficinas de escrita audiovisual em narrativas afrofuturistas, realizadas em 2023.
Em suas redes sociais, o Mejoda se define como “processo de comunicação alternativa e comunitária do Distrito de Aguablanca”.
O território de Aguablanca, localizado no oriente de Cali e com alta concentração da população negra, é também uma expressão do racismo ambiental colombiano. Em 2023, eu e Rafa estivemos em Aguablanca para participar do Ubuntu: IV Encuentro de Territorio – Agencias Comunitarias, Identidades y Sanaciones Colectivas, realizado pela Casa Cultural El Chontaduro, uma associação que se descreve como “um ponto de encontro para a comunidade, um espaço coletivo para sonhar e construir um mundo diferente”.
A experiência no encontro foi marcante! As mais velhas e suas histórias. As juventudes e seus recados. As infâncias e suas brincadeiras.
Desde El Chontaduro, caminhamos pelas ruas de Aguablanca: cartazes, tambores, megafone, cantos e, sobretudo, corpos. Fazendo da alegria uma arma para sobreviver nas “fronteiras invisíveis” dos territórios em disputa pelo narcotráfico, em um distrito violentado pelo Estado.
Parte dessa história, contamos no artigo Diferentes Oceanos, um Mesmo Continente: Salvador, Cali e memória como estratégia de luta antirracista³².
Além das expressões artísticas como forma de existência e luta do povo afrocolombiano, também nos chamou a atenção as “memórias” produzidas.
Desde o Monumento a la Resistencia, erguido pela população em homenagem às vítimas da repressão durante as manifestações de 2021, até o viche, feito e oferecido por nossa amiga Maja — a bebida ancestral, originária dos povos afrocolombianos, esteve proibida até 2021.
Em Cali, foi interessante observar a comunicação produzida a partir de monumentos e corpos na rua.
A partir do Vozes Latinas, também pude descobrir outras manifestações afrolatinas que ocupam as ruas como expressão política.
Desde o Uruguai, inspira o Mizangas – Movimiento de Mujeres Afrodescendientes³³, organização de mulheres com uma longa trajetória de luta contra o racismo e pela valorização das diversas existências das mulheres afrodescendentes.
O Mizangas está nas ruas e nas disputas políticas com seus corpos de mulheres negras: em debates, passeatas, formações e encontros. Com seus tambores que questionam: “Quem tem medo dos feminismos negros?”
Os corpos e tambores do Mizangas também constroem a identidade afrouruguaia. E, além do espaço público, elas também ocupam o meio digital, com produções audiovisuais que abordam a cultura, a história e o cotidiano da população afrodescendente.
No vídeo El Espejo del Racismo, produzido e publicado pelo Mizangas, personagens citam comentários racistas enfrentados diariamente pela população afrouruguaia:
“De que país você é? E seus pais, de onde são? Vocês são irmãs?! Esse cabelo é seu? Como faz para lavar o cabelo? Posso tocar no seu cabelo? Penteia esse cabelo! Passa uma prancha (no cabelo). Para esse trabalho, é preciso ter boa aparência. Não nos leve a mal, mas estamos buscando outro perfil. Obrigado, mas já ocupamos a vaga. Você concluiu o primeiro grau? Estuda Ciências!? Como você fez para conseguir esse trabalho? Você é a professora?
Nossa, você fala muito bem. Você não fala como uma negra. Você é negra, mas você é tão linda. Tenho meias cor de pele, as comuns. Negro, mas limpinho. Nunca fiquei com um negro. Ai negra, como você deve ser na cama! Vocês negros sabem dançar. Vocês negros são bons para o esporte. Eu não sou racista, mas...”
(Mizangas Mujeres Afrodescendientes, El Espejo del Racismo, YouTube, 31 jul. 2019.)
La vida es un carnaval
Eu ainda não consegui vivenciar o Candombe no Uruguai, que, segundo cartazes de atos organizados pelo Mizangas, significa “amor, luta e resistência”.
Muitas pessoas comparam os desfiles de Candombe aos desfiles de escola de samba brasileiro. Sua estética, tambores e tradições extrapolam a manifestação cultural e tornam-se um ato político, que expõe a raiz negra de um país visto como “europeu”.
Em 2024, conversei com a ativista argentina Maga Perez, que se define como “artista plástica, jornalista, militante pelos direitos humanos dxs afrodescendentes” e integrante da Misibamba.
A entrevista foi publicada no livro Ecos de Búzios (INTERVOZES, 2024).
Perguntei-lhe sobre a importância do Candombe na Argentina, e ela me respondeu sobre a magnitude da manifestação cultural e da comunicação para “dialogar com as pessoas, contar a história em primeira pessoa”, emendando um exemplo de como o sistema educacional argentino “ensinava” o racismo nas escolas a partir da celebração do Día de la Raza, em que, segundo ela, “as brancas eram as ‘mártires’, as negras eram as ‘escravas’ e as crianças com traços indígenas eram as ‘índias’”.
De acordo com Maga, a expressão artística é uma forma de diálogo para o enfrentamento ao racismo.
No Chile, quando estávamos em Santiago, eu e Rafa até pensamos em ir para Arica, mas os ventos da vida nos sopraram de volta ao Brasil.
Meus pés ainda não tocaram Arica, mas me parece ser uma das mais fortes encruzilhadas da América Latina. Por lá existe um porto. Foi por lá que os espanhóis levaram os minérios do território boliviano. Foi por lá que ingressaram negros de origem africana para serem escravizados pelos espanhóis.
Foi por lá que Bolívia, Peru e Chile travaram a Guerra do Pacífico (1879-1884), que culminou na vitória chilena — passando a controlar o território e negando à nação boliviana a soberania do acesso ao mar.
Até hoje, por conta desse episódio, forjou-se uma rivalidade entre Bolívia e Chile.
Tenho muita vontade de conhecer o carnaval de Arica, apesar de ser impossível prometer, já que ele ocorre no mesmo período que o carnaval de Salvador.
Mas, conforme apontou a pesquisa Vozes Latinas, por lá existe o grupo Oro Negro³⁷, que faz do carnaval chileno uma expressão de luta pela “visibilização afrodescendente em nossa região”, como definem em suas redes sociais.
Com música, dança, cores e corpos, o Oro Negro desfila nas ruas de Arica, ao mesmo tempo que ocupa espaços de discussão sobre programas e políticas públicas de interesse do “povo tribal afrodescendente chileno”.
O carnaval também é uma forma de expressão da coletiva Negrocentricxs que, em 2024, utilizou essa linguagem durante o Día de los Patrimonios, feriado com ampla programação cultural no Chile.
A festa também é uma forma de luta da Asociación Misibamba, que, entre suas músicas, tambores, milongas e danças, reivindica a existência do povo afro-argentino e disputa um Estado que insiste em negar a participação da população negra na construção do que hoje se chama Argentina.
Eu, que venho de Salvador — uma cidade que sempre criminalizou corpos negros nas ruas —, sei a importância de um carnaval e também de um abraço negro, de um sorriso negro e da felicidade estampada publicamente.
Por isso, me encantaria um dia ver o Oro Negro no Chile, a Misibamba na Argentina, o Mizangas no Uruguai e as Cimarronas na Bolívia.
Esta última se define como “uma associação de mulheres afrobolivianas dedicadas à defesa dos nossos direitos humanos, à prevenção da violência, ao trabalho de novas masculinidades e a ações ligadas ao desenvolvimento socioeconômico de nossas irmãs”.
Em suas redes sociais, as Cimarronas³⁸ compartilham imagens de sua participação em encontros e atos públicos que afirmam a existência das mulheres afrobolivianas.
Não faltam músicas, danças, cores, folhas e corpos para revelar a presença da população afrodescendente na Bolívia e sua organização em torno do autorreconhecimento e da busca por políticas públicas inclusivas.
Comida para abrir os caminhos
Nem tudo na vida é carnaval. Também é comida.
Pensando nisso, a AFROOS realizou, em 2023, o Festival de la Cochinita³⁹, em Atiquizaya. O evento promoveu um festival gastronômico com comidas típicas de El Salvador, de origem africana.
Durante o festival, o chef Rey Guerrero⁴⁰ trouxe o exemplo da sopa de galinha e sancochos, tradicionais no país salvadorenho e reconhecidos como herança espanhola, quando, de acordo com o chef, têm origem africana.
Ou seja, através do alimento, a organização “prova” que existe uma raiz africana em El Salvador.
Não à toa, foi justamente a comida que me fez sentir em território afrolatino quando estive no Equador, Colômbia, Cuba e Venezuela.
Não à toa, sempre que viajo para fora da Bahia carrego na mochila mais garrafas de dendê e pacotes de feijão do que casacos.
A estrada me ensinou que se proteger do banzo é tão importante quanto se proteger do frio; que comida é tão importante quanto roupa; que música nos ouvidos é capaz de trazer coragem no peito; que lembranças trazem orgulho; e que saber de onde eu vim — a cidade mais negra do mundo, fora de África — me dá régua e compasso para entrar e sair de qualquer veia da América Latina.
Referências bibliográficas
ARGENTINA. Lei nº 26.852, de 24 de abril de 2013. Sanciona el Día Nacional de los/as afroargentinos/as y de la cultura afro. Buenos Aires: Senado e Câmara dos Deputados da Argentina, 2013.
CHILE. Lei nº 21.151, de 8 de abril de 2019. Outorga reconocimiento legal al pueblo tribal afrodescendiente chileno. Santiago: Presidência da República, 2019.
GALEANO, Eduardo. O Livro dos Abraços. Porto Alegre: L&PM, 1995.
INTERVOZES – Coletivo Brasil de Comunicação Social. Quem Controla a Mídia? Dos velhos oligopólios aos monopólios digitais. São Paulo: Veneta, 2023.
INTERVOZES – Coletivo Brasil de Comunicação Social. Ecos de Búzios: contribuições ao debate brasileiro sobre comunicação e relações étnico-raciais. Rio de Janeiro: Dandara, 2024.
KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Esse artigo faz parte da publicação Olhares Insurgentes da Améfrica Ladina




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