Rádio e TV Quilombo: comunicação ancestral como estratégia e herança quilombola
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Autores: Raimundo José da Silva Leite e Ludmila Pereira de Almeida

Resumo
O objetivo deste trabalho é refletir, a partir do relato e da memória, sobre a Comunicação Ancestral, tendo como fundamento a importância da Rádio e TV Quilombo Rampa, atualmente, o primeiro e maior veículo de comunicação feito por, para e com a população quilombola. Discutiremos a importância da tecnologia ancestral para a continuidade das práticas culturais quilombolas e suas formas criativas de invenção, bem como a importância de estimular a juventude a se reconhecer nos processos da comunidade. A Rádio e TV Quilombo surge como um ato de reivindicação para contar a própria história usando ferramentas modernas, sem se desapegar nem deixar de recorrer às ferramentas ancestrais, que permanecem como as maiores forças da comunidade. Trata-se de fazer com que a tecnologia moderna não domine, não nos desconecte e não substitua a tecnologia ancestral. A Comunicação Ancestral representa uma necessidade de retorno ao nosso chão e às raízes do conhecimento que nos rodeia. É canto, dança, festejos; são os toques de tambor que nos convocam de volta ao que realmente importa: o Quilombo.
Palavras-chave: Comunicação ancestral; Quilombo; Tecnologias; Narrativas.
Para começo de conversa
Criar ferramentas de comunicação em contexto de diáspora negra é um ato político que ressalta, mais uma vez, a atrevivência da população negra: a insistência em continuar viva, fisicamente e simbolicamente. As estratégias de morte são múltiplas e atravessam nossas vidas, seja no âmbito da saúde, da educação, da cultura, e da comunicação, o campo da construção simbólica que pauta o nosso cotidiano e mobiliza, inclusive, significados em nossas relações humanas. A concentração dos grandes veículos midiáticos nas mãos dos donos do poder é uma estratégia para manter as tecnologias e as narrativas sobre o mundo a partir de um único modo de leitura, aquele que reforça e beneficia a mesma estrutura de dominação.
Nesse sentido, nosso objetivo é refletir, a partir do relato e da memória, sobre a Comunicação Ancestral, tendo como fundamento a importância da Rádio e TV Quilombo Rampa, atualmente, o primeiro e maior veículo de comunicação feito por, para e com quilombolas — sendo reconhecido como um marco na história da imprensa negra no Brasil¹.
Situada no Quilombo Rampa — uma das quatro comunidades certificadas pela Fundação Cultural Palmares que compõem o Território Quilombola Rampa, zona rural do município de Vargem Grande (MA), com mais de 500 moradores —, trazer o tema da comunicação a partir desse chão é falar de uma das maiores transformações enfrentadas pelo nosso povo. Isso porque envolve narrar o nosso contato com o tão falado “mundo moderno”, “a globalização” que, até a criação da Rádio e TV Quilombo, eram mundos desconhecidos ou não entendidos pela comunidade.
Fundada em 2017, a Rádio e TV Quilombo nasceu de mobilizações anteriores, motivadas pelo questionamento sobre a nossa capacidade de contar nossas histórias por nós mesmos, algo que já fazíamos desde 1818, quando o Quilombo Rampa foi fundado. Esse também pode ser entendido como o marco inicial, ou melhor, a continuidade do que nomeamos como “Comunicação Ancestral”.
Nossa atuação comunicacional é orgânica e dinâmica: retrata o dia a dia da comunidade e sua história, passando pelo enfrentamento das violações de direitos ao território e pelo fortalecimento de nossa autonomia, potências e felicidades, preservando os saberes ancestrais quilombolas e suas manifestações culturais, como o tambor de crioula, a roça de pé de toco, as rezas de pé de altar, as rezas para defuntos e anjinhos, o uso de chás, benzimentos e o jacá do quilombo.
Além da produção de conteúdos e reportagens, realizamos atividades culturais, formação política, rodas de conversa, ações de educação antirracista e promoção da saúde na comunidade, focando na população quilombola. O espaço da Rádio e TV Quilombo é coletivo e abriga, além da rádio comunitária e web (Quilombo FM, A Medonha) e do estúdio de web TV; a Biblioteca Fátima Leite — com livros afro-referenciados; o Museu do Quilombo, onde reunimos peças antigas do território; e o Medonha Tranças, espaço onde as mulheres podem dialogar e práticas técnicas de cuidado com cabelos afros.
Notas
IMPRENSA NEGRA NO BRASIL. Ep 4 — TV Quilombo ajuda comunidade a preservar memória de lutas. 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bwlR-_S8dXs&list=PLYbMHLukL-ICYw5vWnkhQ7iYSkX27qBw&index=2. Acesso em: 14 ago. 2024.
A tecnologia ancestral e a tecnologia moderna
O contato com a modernidade, com o “novo mundo” e com as tecnologias que nunca fizeram parte da nossa realidade, foi um grande desafio. Todos, da criança ao mais ancião, não sabiam como se encaixar nesse mundo desconhecido. A modernidade produziu uma espécie de contradição interna: entender o processo todo se tornou um grande desafio de existência, sobrevivência e resistência para o nosso povo.
Como imposição histórica, o mundo moderno jamais se curva ou se adequa à realidade das comunidades quilombolas, ou de qualquer comunidade tradicional. Pelo contrário: somos nós que precisamos nos adaptar aos novos aspectos dessa nova realidade, diante de um modo de vida que já existe desde 1818. Imagine, de repente, ter contato com elementos que nunca fizeram parte da vida de seus antepassados, de seus ancestrais, e vê-los entrar na comunidade...
A energia elétrica chegou apenas em 2003; a internet, em 2017. Esses marcos mobilizam nossa ação de comunicação, que passou a alcançar outras comunidades por meio das ondas e da rede. Antes, o acesso era negado, e sabemos bem que, ao barrar-se o direito ao território, barra-se também o direito à existência em primeira pessoa, afastando-nos de informações e tecnologias capazes de alavancar outras narrativas.
Para o nosso povo, “o novo” é um desafio a mais. Ele nos lembra do tempo sequestrado — não necessariamente perdido, porque continuávamos a construir nossos saberes fora da disputa de narrativas, sem acesso igualitário às ferramentas — e de como esse mundo moderno não nos contempla como somos: com o nosso jeito, nossa real história, nossa força e cultura ancestral.
Ao enxergar o que o mundo moderno e os meios tecnológicos mostram, vimos também o que eles escondem. Nossa história estava entre essas ausências. O modo de viver quilombola não tinha espaço nesse “novo mundo”, e, quando aparecia, não recebia o devido respeito. Isso gerou muitos problemas para a juventude quilombola, que não se sentia representada. À medida que aprendia a usar as novas tecnologias, também se aproximava de culturas externas e se distanciava da sua, bebendo de fontes alheias à sua realidade.
A partir disso, começaram a surgir complicações culturais. O que sempre vivemos e valorizamos não existe para esse “novo mundo”, e muitos jovens passaram a seguir esse mundo que conheciam principalmente pela TV tradicional. Com isso, a transmissão natural da cultura e dos saberes ancestrais dos mais velhos para os mais novos foi afetada pelo contato com a modernidade e as novas tecnologias. A juventude é o elo entre a geração mais nova e a mais velha de uma comunidade; o jovem é um ancião que está em processo de descoberta de suas próprias potências. Essa relação também diz respeito à continuidade do povo e dos saberes que não cabem na história oficial, e que só podem ser acessados pela vivência e a positivação.
Diante desses desafios, que a cada dia pareciam mais fortes, nos restavam duas opções: seguir o percurso moderno sem interferir ou enfrentar o processo. Escolhemos a segunda. Existir e resistir é não deixar que a modernidade, uma cultura que não é a nossa, nos tire o que é e sempre será nosso: a vida, a cultura, a força ancestral herdada e preservada até hoje.
Foi assim que nasceu a Rádio e TV Quilombo. Com ela, retomamos e atualizamos tudo o que é nosso, enfrentando o sistema racista que jamais nos respeitou como somos ou valorizou o que temos. Criamos e construímos espaços onde podemos nos ver e nos reconhecer, de nós para nós. Passamos a contar a nossa história, do nosso jeito, usando nossa tecnologia e adaptando o que vem de fora aos nossos fundamentos ancestrais.
Comunicação ancestral de dentro para dentro
A Rádio e TV Quilombo tem como objetivo, sobretudo, dar visibilidade à cultura quilombola por meio de conteúdo audiovisual. Para contar essa rica história, utilizam-se materiais ancestrais e improvisados, como a câmera de papelão e o “bambu drone”, tecnologias que nascem dos saberes tradicionais e do uso criativo de materiais do cotidiano do Quilombo, adaptadas à câmera de celular. Também são usados microfones de graveto e bambu para a construção de um tripé para a câmera.
Fotos 1 a 5 — Câmera de papelão e “bambu drone”. Tecnologias criadas pela Rádio e TV Quilombo.





Fonte: Reprodução Rádio e TV Quilombo.
Uma retomada de dentro para dentro. Tudo muda quando você se enxerga como é, sem buscar se adaptar às estruturas impostas pela modernidade, sem se moldar ou se curvar ao que a mídia tradicional produz e reproduz sistematicamente, um apagamento da nossa real história.
A Rádio e TV Quilombo tem hoje uma importância “medonha” — aqui entendida não no sentido dicionarizado, mas como insurgente, incrível e essencial para o Quilombo. Representatividade importa. A possibilidade de as pessoas se reconhecerem nos processos importa. A Rádio e TV Quilombo existe para fazer com que a tecnologia moderna se adeque à nossa realidade, e não o contrário. Apesar dos desafios diários, a chamada comunicação popular e comunitária é feita de forma diferente, forte, radical e necessária, fortalecendo a cada dia a luta em que acreditamos por um mundo justo, comunitário, livre de preconceito e de racismo. E tudo isso defendendo práticas ancestrais de comunicação, que chamamos de Comunicação Ancestral.
O que é Comunicação Ancestral? No contexto da Rádio e TV Quilombo, a Comunicação Ancestral parte, antes de tudo, de um ponto fundamental: o respeito ao lugar que nos constitui, tanto aquele de onde fomos arrancados historicamente quanto o lugar em que vivemos. O processo de diáspora forçada da população negra nos atravessa pela perversidade da escravidão, mas não se limita a ela. Nossa história vem de muito antes, e a escravidão é um capítulo que tentou nos distanciar da África e de tudo o que nos remete a ela.
Para nós, é importante partir da África, de onde viemos, e do Quilombo, de onde estamos. Esses dois territórios estão conectados: o Quilombo é uma retomada e um retorno ao nosso berço, forjado na diáspora africana em terras brasileiras. Esse ponto de partida significa conduzir a nossa Comunicação Ancestral como ato de compromisso político e histórico, mas, antes de tudo, como um gesto de respeito à história de todas e todos que vieram antes, abrindo caminhos e se recriando para nos manter de pé nos dias de hoje.
Ancestral não é apenas como um termo: é uma percepção de mundo com trajetória e legado. O que fazemos hoje é continuidade. É garantir que a roda continue girando. Tudo isso está dentro e fora de nós, nos comandando, instruindo e fundamentando táticas espirituais e culturais para a manutenção dos nossos saberes. Nesse contexto, todos os públicos, crianças, jovens, adultos e anciãos, assumem o compromisso de compreender que nossa forma de comunicação já existia muito antes. E, se ela já existia, nossa missão é garantir que ela nunca morra.
Buscamos que a Comunicação Ancestral seja de dentro para dentro, para que continue significativa e importante em nossa realidade, sem depender essencialmente da tecnologia moderna para existir. Entendemos que as tecnologias ancestrais existem e são eficazes por si só. Fazemos uma distinção entre a tecnologia moderna, como o celular, a internet, as redes sociais, tanto no aspecto virtual quanto no material, e a tecnologia ancestral, que é tudo o que já existia e existe em nossas vivências no contexto comunitário.
Não podemos nos apegar ao que não é fabricado por nós ou pelos nossos. Um celular, um tablet ou um computador são tecnologias que não dominamos na fabricação; por isso, não podemos pautar nossa existência pelo que não controlamos. Mais importantes é valorizar e fortalecer o que nós, ou os nossos, sabemos fazer e dominamos no processo de criação e fabricação.
Falamos de tecnologias importantes, presentes, potentes e necessárias, como o cofo, a mansaba (esteira), o jacá, a lamparina e do pilão. Falamos também dos modos de fazer: plantar, cuidar, colher, transmitir oralmente, praticar culturas afrodiaspóricas, viver e encarar o o dia a dia no quilombo de maneira própria e diferente.
Foto 6 —Trançado do Cofo.

Fonte: Reprodução Rádio e TV Quilombo.
Tudo isso é tecnologia de ponta para nós e não pode ser tratada como menos importante do que a tecnologia moderna. A questão é: o que nós podemos e sabemos fazer, o que nós dominamos ou o que domina, tem que ser ancestral; tem que ser tecnologia ancestral. Isso não significa que não usamos ou não queremos usar a tecnologia moderna em nosso meio, mas sim que o moderno precisa se adaptar à nossa realidade. A tecnologia moderna não pode tomar o lugar sagrado do que é tecnologia ancestral.
Um dos desafios, no meio disso tudo, foi aprender a usar o moderno com o propósito de fortalecer e dar mais visibilidade à tecnologia ancestral. Usar o moderno a nosso favor, na manutenção das tradições, na luta para manter viva a nossa cultura, mas sempre sem perder o fundamento da comunidade e do território, fundamento pautado em tudo que é ancestral.
Simples e, ao mesmo tempo, complexo. Estamos falando de vivenciar o ancestral, algo que só faz sentido para quem compreende e sente o Quilombo. Quando a comunidade entende que tudo o que já tem é mais importante do que aquilo que, por ventura, pode chegar, percebe que a maior tecnologia já está presente. Assim, o que é moderno não toma tomar o lugar do que já existe, mas se adequa a ele.
É importante, sim, entender e ter acesso a tecnologias como o computador, a internet ou a televisão. Até porque, historicamente, foi o nosso povo que construiu e inventou muitas delas, ou que teve parte fundamental nessas invenções, quando pensamos na produção de conhecimento muito antes da existência greco-romana e no roubo de tecnologias do antigo Kemet, atual Egito, no continente africano. Ainda hoje, quem está na linha de produção e na comercialização em massa dessas tecnologias são, em grande parte, pessoas negras e trabalhadoras.
As comunidades devem ter acesso a todo tipo de tecnologia moderna, mas é fundamental buscar observar o que está ao nosso alcance de forma acessível. Saber fazer um abano, por exemplo — material ancestral — é muito mais importante do que ter um computador que não sabemos fabricar. O que eu sei fazer é mais importante diante daquilo que eu não sei fazer. Esse é um pilares da forma de viver e praticar a Comunicação Ancestral.
Fazer esse movimento é proteger a nossa história, a nossa comunidade e toda a história de um povo vivo, que resistiu para que estivéssemos aqui. Tratar, por exemplo, uma lâmpada (tecnologia moderna) como mais importante do que uma lamparina (tecnologia ancestral) é desconsiderar toda a luta daqueles que viveram e morreram sem ver a luz elétrica, mas que iluminaram a vida inteira com a luz da lamparina.
Isso é também desconsiderar o que sempre fez parte e ainda faz parte da nossa vivência, mesmo que de outra forma, pois é uma tecnologia que veio antes. Compreender isso é entender que a “história universal” não é a única história, e que cada Quilombo tem sua própria forma de contar sobre si, de representar suas imagens e de trilhar seu caminho, tão válido e importante quanto qualquer outra história.
A gente já acessa a luz através da energia elétrica, já tem uma geladeira em casa, mas isso não significa que vamos tratar a geladeira com mais importância do que o pote e as técnicas de conservação de alimentos, que são ancestrais e fazem parte da tecnologia do nosso povo. Essa é a evidência prática de que a tecnologia ancestral sempre será fundamental para a nossa realidade, tanto para quem já passou quanto para quem está aqui, afinal ela nunca falha. Já as coisas modernas, que compramos prontas, são feitas para falhar rapidamente. O que a minha comunidade, ou o que o meu avô, minha avó, minha mãe, meu pai ou qualquer outra pessoa do meu lugar sabe fazer, é tecnologia que supre necessidades: é tecnologia ancestral.
Por isso, mesmo que não tenhamos acesso a nenhum meio moderno de comunicação nos territórios, vamos continuar nos comunicando, porque sempre nos comunicamos — e isso também é tecnologia.
Para nós, quilombolas da Rádio e TV Quilombo, que realizamos oficinas de comunicação nos territórios, é um desafio transmitir esse entendimento para as comunidades. Como organizar tudo isso em um mundo altamente tecnológico?
Parece simples, mas é uma tarefa complexa, pois a modernidade tecnológica já é uma realidade nas comunidades, principalmente para o público jovem e para as crianças que nascem acreditando que ela é a única possibilidade. O desafio é ainda maior porque as crianças não se acostumam a assistir ao Tambor de Crioula, manifestação da nossa cultura, na tela do celular, mas assistem com naturalidade a vídeos que não retratam a nossa realidade, como a Galinha Pintadinha.
Fotos 7 e 8 — Tambor da Mata, Quilombo Rampa.


Fonte: Reprodução Rádio e TV Quilombo.
A tecnologia da Comunicação Ancestral é nos colocarmos no caminho inverso daquele que a sociedade está acostumada a trilhar e acreditar ser o único. Para a maioria das pessoas hoje, a maior tecnologia é a moderna; para nós, a maior tecnologia é a ancestral. É um movimento pautado na prática e sabedoria africana de Sankofa: olhar e caminhar para trás é necessário para quem quer seguir em frente. Só sabe onde quer chegar e alçar voos quem consegue fincar bem suas raízes e tem um lugar para voltar.
A Comunicação Ancestral é importante não apenas para contar a nossa história e mostrar a nossa realidade, mas também para reafirmar, a cada dia, a nossa identidade enquanto povo quilombola na diáspora africana. Isso mudou a nossa realidade no Quilombo Rampa, pois agora podermos narrar nossa própria história sem nos preocupar com o que os outros vão pensar ao nosso respeito, sendo protagonistas dessa forma de contar. E fazemos isso tendo como base, começo, meio e continuidade o que ensina o Mestre Nego Bispo. O projeto de Comunicação Ancestral nasce da criatividade e inovação da nossa tecnologia ancestral, e o que fazemos é continuar essa construção.
A Rádio e TV Quilombo nos permitiu encontrar, em nosso próprio território, ferramentas que afirmam que o que já contaram sobre nós não é a verdade absoluta. Poder confrontar essas narrativas e mostrar uma realidade que sempre existiu tornou-se um dos marcos do nosso projeto de Comunicação Ancestral.
Ser protagonista para contar a própria história e a do seu povo é ter uma potência enorme nas mãos — e esse é um direito nosso. Quando usamos essa força a nosso favor, conseguimos mediar a entrada da tecnologia moderna na comunidade, controlando até que ponto ela pode intervir. Por isso, uma de nossas maiores preocupações é como fazer com que outras comunidades também se apropriem das suas próprias formas de comunicação, partindo de sua realidade e usando o que têm ao alcance.
O projeto de concentração midiática no Brasil é, também, um projeto de destruição do que é tradicional e cultural, além de tentar eliminar e invisibilizar a pluralidade de formas que a comunicação e a tecnologia podem assumir. Nossa luta pela defesa do que é ancestral se deve ao fato de que não seria justo aceitar um processo tecnológico que anule toda a construção histórica dentro da nossa comunidade.
Manter a cultura viva em meio ao mundo moderno, sem perder nosso fundamento ancestral, é garantir a continuidade das memórias ao mesmo tempo que criamos outras, a partir do nosso chão. É isso que fazemos e praticamos com a Comunicação Ancestral.
Possibilidades de considerações finais…
Estamos, a todo o momento, sendo ensinados de que as tecnologias modernas são sempre o melhor para nós. No entanto, dentro das estratégias da Rádio e TV Quilombo, entendemos que, se não dominamos esses meios, eles acabam nos dominando e nos afastando da nossa realidade e da vivência do que é a Comunicação Ancestral. Dar à nossa vivência ancestral a importância que ela merece tem um valor sagrado: é validar tudo o que nossos antepassados fizeram e continuam fazendo. Em meio à modernidade, a ideia do “antigo” é muitas vezes rejeitada e apagada.
Fotos 9 e 10 — Rádio e TV Quilombo, Quilombo Rampa.


Fonte: Reprodução Rádio e TV Quilombo.
Isso nos leva ao entendimento de que todas as faixas etárias podem valorizar, ressignificar e retomar as vivências internas e externas a partir de nossa comunidade e de nossos territórios, que são nossas referências de mundo. É, no nosso dia a dia, por meio das trocas de experiências intergeracionais, aprender a se apegar mais ao que temos do que ao que nos falta. A Comunicação Ancestral também é uma necessidade de retorno ao nosso chão, às raízes do conhecimento que nos rodeia. É um canto, uma dança, os festejos, os toques de tambor que nos chamam de volta ao que realmente importa, o Quilombo.
Muito mais do que uma organização de comunicação, a Rádio e TV Quilombo é um coletivo com várias vertentes de atuação (educação, economia solidária e meio ambiente), reconhecido nacionalmente pela criatividade e inovação na construção de seus próprios meios para exercer o direito fundamental à comunicação e à informação, mas, sobretudo, o direito de existir.
O reconhecimento do nosso trabalho se reflete nos convites para compartilhar nossas experiências quanto nas premiações: em 2018, o projeto foi premiado no 1° Festival de Cinema Móvel de Brasília, na categoria “Mídia Alternativa”, como melhor reportagem. Em 2023, a Rádio e TV Quilombo foi premiada nacionalmente como um dos veículos de comunicação negra mais admirados do país. No mesmo ano, o comunicador Raimundo José, cofundador da Quilombo, foi considerado um dos 50 Jornalistas Negros e Negras da Imprensa Brasileira mais admirados — premiação organizada pelo Jornalistas&Cia, em parceria com 1 Papo Reto, Neo Mondo e Rede JP de Jornalistas pela Diversidade na Comunicação. Ainda em 2023, recebemos o Prêmio Favela Viva, concedido pelo Ministério da Cultura.
Além disso, palestramos na Conferência Internacional IGF 2023 (Fórum de Governança da Internet) em Kyoto, Japão; em 2022, participamos do Programa de Liderança para Visitantes Internacionais (IVLP), um dos principais programas de intercâmbio profissional dos Estados Unidos, promovido pela Embaixada dos EUA; e, em 2023, estivemos na COP 28, realizada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Em todos esses espaços, levamos a voz da população quilombola para debater temas como internet, comunicação e racismo ambiental.
A Rádio e TV Quilombo está presente nas seguintes plataformas:
Instagram (www.instagram.com/radioetvquilombo)
YouTube (www.youtube.com/@tvquilombo9782)
Website (www.tvquilombo.com.br)
Referências bibliográficas
Com equipamentos improvisados, jovens quilombolas mantêm TV, podcast e programa de rádio. Mundo Negro. 2023. Disponível em: https://mundonegro.inf.br/com-equipamentos-improvisados-jovens-quilombolas-mantem-tv-podcast-e-programa-de-radio/. Acesso em 14 ago. 2024.
Criador da TV Quilombo, do MA, se emociona ao ver projeto exibido em rede nacional: 'Certeza que a luta vale a pena'. G1. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2021/11/22/criador-da-tv-quilombo-do-ma-se-emociona-ao-ver-projeto-exibido-em-rede-nacional-certeza-que-a-luta-vale-a-pena.ghtml. Acesso em 14 ago. 2024.
ETC & TAL. A Tradição Nutre a Inovação. 2024. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/24nwf4nr1VRQKg6lVZZlLE. Acesso em 14 ago. 2024.
Inovação Ancestral com Olhar para o Futuro: coalizão reúne mídias periféricas, faveladas, quilombolas e indígenas. Periferia em Movimento. 2023. Disponível em: https://periferiaemmovimento.com.br/coalizaomidias052023/. Acesso em 14 ago. 2024.
Jornalista Quilombola Aborda o Racismo Digital em Evento No Japão: “falta acesso à internet nas comunidades”. Mundo Negro. 2023. Disponível em: https://mundonegro.inf.br/jornalista-quilombola-aborda-o-racismo-digital-em-evento-no-japao-falta-acesso-a-internet-nas-comunidades/. Acesso em 14 ago. 2024.
Luciano Huck Visita o Maranhão e Conhece o Quilombo Rampa. 2021. Imirante. Disponível em: https://imirante.com/entretenimento/brasil/2021/10/20/luciano-huck-visita-o-maranhao-e-conhece-o-quilombo-rampa-atraves-de-projeto-de-jovens. Acesso em 14 ago. 2024.
Personalidades Negras da Amazônia que Você Precisa Conhecer eSeguir. Mídia NINJA. 2023. Disponível em: https://midianinja.org/personalidades-negras-da-amazonia-que-voce-precisa-conhecer-e-seguir/. Acesso em 14 ago. 2024.
Podcast: Ep 4-TV Quilombo Ajuda Comunidade a Preservar Memória de Luta. Radioagência Nacional. 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2023-11/podcast-ep-4-tv-quilombo-ajuda-comunidade-preservar-memoria-de-luta. Acesso em 14 ago. 2024.
Quilombolas Brasileiros Participam de Curso de Podcast Oferecido pela Embaixada dos EUA - DiversEM - Estado de Minas. 2023. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/diversidade/2023/07/14/noticia-diversidade,1520083/quilombolas-brasileiros-participam-de-curso-de-podcast-oferecido-pela-embai.shtml. Acesso em 14 ago. 2024
TV Quilombo. 2024. Disponível em: https://youtube.com/@tvquilombo9782?si=J1Axzbo_1BRyP9Xf . Acesso em 14 ago. 2024.
TV Quilombola Ajuda Comunidade a Preservar Memória de Lutas. Agência Brasil. 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-09/tv-quilombola-ajuda-comunidade-preservar-memoria-de-lutas. Acesso em 14 ago. 2024.
TV Quilombo: a resistência das comunidades tradicionais com câmera de papelão, microfone de graveto e tripé de bambu. Mundo Negro. 2022. Disponível em: https://mundonegro.inf.br/tv-quilombo-a-resistencia-das-comunidades-tradicionais-com-camera-de-papelao-microfone-de-graveto-e-tripe-de-bambu. Acesso em 14 ago. 2024.
TV Quilombo: de uma câmera de papelão até um prêmio em Brasília. Portal Guará. 2019. Disponível em: https://portalguara.com/tv-quilombo-de-uma-camera-de-papelao-ate-um-premio-em-brasilia/. Acesso em 14 ago. 2024.



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