top of page
  • Instagram
  • Facebook
  • X
  • LinkedIn
  • Flickr

Por uma Outra Globalização: mecnologia, comunicação antirracista e o período popular da história

Resumo


O “período popular da história” deixa de ser apenas uma proposição utópica cunhada pelo geógrafo e jornalista negro Milton Santos. A partir da dialética entre o cotidiano e a história no lugar, sobretudo da

mecnologia como expressão da essência da relação do homem com o meio, é possível observar a produção de uma outra globalização. Para Santos, a globalização consiste em um processo em disputa: na mesma medida em que se impõe sobre os povos subalternizados e periféricos com perversidade, pode (ou deve) ter sua dinâmica (re)significada e (re)designada por esses mesmos atores sociais. Mediante os recursos materiais de que dispõe e o desenvolvimento da criatividade e inventividade geradas na escassez nas ausências, revelam-se o modo de ser, a experiência e a prática espacial

periférica. Lugares, identidades e territorialidades manifestas e vividas na vida cotidiana passam a representar as experiências sociogeográficas do Sul Global. Almejo analisar uma das forças motrizes para a construção de um mundo mais humano, de acordo com Milton Santos, e desvelar como os sujeitos e comunicadores negres, em contexto de escassez, fazem uso da técnica e da tecnologia dominante, que está ao alcance de todos pela primeira vez na história, segundo Santos, para resistir às dinâmicas impostas pelo sistema hegemônico. Tendo em vista o papel crucial da ideologia e da

informação em contexto de globalização, também apontado por Milton Santos, busco, por meio da comunicação e da produção de narrativas audiovisuais da favela do Complexo do Alemão, observar a perspectiva dos próprios comunicadores negres sobre sua realidade e o papel da mecnologia nesse processo. Desse modo, reflito sobre as dinâmicas socioterritoriais que permeiam a diversidade de ações e iniciativas que são frentes de resistência e que surgem nas áreas mais periféricas do Rio de Janeiro como um meio de seus sujeitos superarem a submissão da escala local em relação à global, favorecendo uma leitura sistemática acerca da construção de uma nova ordem e de outra configuração socioespacial possível a partir da mecnologia, bem como da produção de narrativas e de comunicação antirracista ancorada pelo período popular.


Palavras-chaves: Globalização; Milton Santos; Mecnologia; Comunicação Antirracista; Período Popular da História.



Introdução


Com a importância da informação e o constante crescimento de uma geração produtora de conteúdo e dados, o papel e a presença que a carga técnica-científica-informacional¹ exerce na vida cotidiana em sociedade têm ganhado cada vez mais ressonância na contemporaneidade. A comunicação e a

construção de narrativas audiovisuais dos pobres das grandes cidades dos países do Terceiro Mundo sobre a própria realidade socioespacial revelam o modo como esses sujeitos se apropriam da técnica e da tecnologia vigente a seu favor — em resistência e oposição ao sistema global —, ressignificando-as a partir do olhar e da vivência local. Tal como sugere Milton Santos e sua teoria sobre a globalização, as mesmas técnicas que permitem a proliferação da ideologia perversa, que mantém e reproduz a pobreza e a escassez em territórios periféricos, pode permitir que esses mesmos sujeitos pobres, em um movimento de baixo para cima, proliferem sua cultura e o modo de vida popular, impondo uma nova ideologia, mais humana.


“Caracteriza-se pela presença maciça dos objetos técnicos, pela aplicação da ciência e pelos intensos fluxos de informações. Todos esses elementos atuam em conjunto na transformação e reprodução do espaço geográfico. Trata-se de um meio bastante artificial, em que a natureza se apresenta como complementar às atividades humanas. O meio técnico-científico-informacional é resultante das transformações do meio técnico, proporcionadas pela união entre a ciência, a tecnologia e a informação. O meio técnico é o meio intermediário entre o meio natural, caracterizado pela harmonia entre as atividades humanas e a natureza, e o meio técnico-científico-in- formacional. O advento do meio técnico-científico-informacional aconteceu na fase recente da globalização, a partir da década de 1970. Isso foi possível em função das inovações tecnológicas e científicas da Terceira Revolução Industrial.” (BRASIL ESCOLA, 2024). BRASIL ESCOLA. Meio Técnico-Científico-Informacional.


Tendo como principal referência a produção de conhecimento, de ideologia, de tecnologia e de inventividade a partir dos próprios sujeitos pobres e negres em situação de escassez e ausência2, ambiciono investigar como, por meio da busca por uma filosofia do bem-viver, intitulada como “mecnologia”, comunicadores negres das áreas mais periféricas do Rio de Janeiro — neste caso, do Complexo do Alemão — se (re)apropriaramda técnica disponível vigente, da tecnologia e do meio técnico-científico-informacional, não só para resistir aos impactos negativos da hegemonia global sobre seus territórios e comunidades, mas também para produzir sua própria ideologia e informação acerca de suas vivências sob uma perspectiva local. Interpretar com profundidade e exaustão as experiências

cotidianas, as relações desses sujeitos e suas práticas com o territórios é relevante em função da possibilidade de contribuir para uma leitura sistemática atualizada e centrada na criação de alternativas para um futuro menos desigual e mais afetuoso. A partir da voz da periferia e do advento do período popular da história, mediante a mecnologia e a comunicação, é possível ressignificar o espaço, a técnica e, por conseguinte, a própria sociedade.


A ausência, no sentido aqui tomado, opõe-se à não existência, na medida em que se trata do reconhecimento do que foi produzido como negação, em uma ação de tornar visível e pensar em formas de construir sua emergência enquanto alternativa. O empobrecimento da realidade, que nas escolas toma forma cotidianamente, precisa ser enfrentado. Nesse lugar de luta, reconhecer as diferentes lógicas como legítimas formas de estar neste mundo é transformá-lo no campo de possibilidades que desejamos e necessitamos: um mundo em que caibam, como presenças, o que hoje narramos como ausências: crianças, jovens, suas histórias, suas culturas e suas legítimas formas de ser. A Página da Educação. A ausência como presença.


Globalização como narrativa em disputa: a construção do discurso e o papel dos comunicadores do Complexo do Alemão

A esperança na construção de uma nova ordem é posta no centro do debate da sociedade contemporânea, principalmente no mundo “pós-pandemia”. Evidenciar a globalização como um processo que não é estático, mas que reinicia constantemente novas formas de sobreviver, adaptar-se e encarar os percalços, motivando os indivíduos a criar, diariamente, novas maneiras de existir e resistir à vida e ao mercado de trabalho no mundo global e globalizante, implica em considerar que o lugar é constituído por essas relações (de poder), e que a sociedade se constitui ao mesmo tempo em que seus lugares.


Tendo em vista as dinâmicas socioterritoriais da diversidade de ações e frentes de resistência identitária e cultural que se produziram (e produzem) no mundo sob uma perspectiva periférica, a elaboração e compartilhamento de novos saberes, experiências, relações sociais e práticas entre os sujeitos e com os territórios, mesmo diante das contradições e dos desafiosinesperados, trazem luz a diferentes configurações espaciais. Essas configurações se constituem em espaços de conformação das subjetividades de cada qual, dando sentido aos nomes e fazeres (simbólicos e materiais) que se impõem sobre a realidade experienciada por cada um.


A “mecnologia” consiste justamente na possibilidade de criar outras narrativas sobre si mesmo e sobre o lugar onde se vive, diferentes daquelas veiculadas pela grande mídia, TV oficial, nas redes sociais etc.


A globalização tem fluxos homogeneizantes, mas exclui a grande maioria da sociedade de sua totalidade. Produz uma quantidade imensa de excluídos que, por viverem no reino da necessidade e usarem de forma bastante diferenciada o território, criam maneiras de sobrevivência que também funcionam como resistências ao meio técnico-científico-informacional e, somando-se à sua grande capacidade de comunicação motivada pela densificação, os pobres criam possibilidades de alternativas de uma nova ordem global a partir das suas vivências cotidianas (SANTOS, 1999) (DIAS, 2021, pps. 218-219).

O modo como o meio técnico-científico-informacional passou a permear o dia a dia das pessoas em sociedade, principalmente em áreas periféricas do Rio de Janeiro, como o Complexo do Alemão, modificou as relações de trabalho, de estudo, de ativismo, bem como infiltrou e massificou com mais força valores como o teletrabalho, o ensino à distância e o ciberativismo. A investigação de como essa reorganização se dá nas relações, nas construções de identidade, de cultura, de articulações e dos espaços, tendo em vista que zonas periféricas como o Alemão são representadas sócio-historicamente como “territórios de resistência”, possibilita a transformação e ressignificação de um imaginário social conservador, que as entende como lugares de ausências (“do que falta”), para uma nova perspectiva: a de um lugar de presenças, onde há intelectualidade, narrativa, cultura, filosofia de vida, inventividade e organização política, inclusive em momentos de crise.

.

O Complexo do Alemão é uma importante periferia urbana do Rio de Janeiro. Abriga um dos maiores conjuntos de favelas do estado e tem suas origens no início do século XX, quando a zona da Leopoldina começou a ser urbanizada e núcleos iniciais de casebres começaram a surgir na região (SILVA, 2005). No início dos anos 1990, as favelas da região passaram a fazer parte da região administrativa e bairro do Complexo do Alemão, passando de cerca de 8 mil habitantes, em 1960, para 58 mil, em 2010. É um território de grande diversidade, concentrando muitas experiências e a convivência simultânea de várias etnias e culturas, em um recorte não só territorial, mas também social.


Durante muitas décadas, foi considerada a área mais violenta da cidade do Rio de Janeiro. Segundo o censo de 2000, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, seu Índice de Desenvolvimento Humano era de 0,711, o 126o e último colocado da cidade do Rio de Janeiro. De acordo com o estudo do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), de 2021, 63% dos moradores do Alemão vivem com até um salário mínimo. Para 71% deles, os serviços de saúde, educação, limpeza e abastecimento de água não atendem às necessidades locais. O levantamento Indicadores de Cidadania do Ibase – Inse-

gurança Alimentar no Complexo do Alemão, de 2023, revelou que 75% das casas com crianças de até 6 anos conviveram com algum nível de insegurança alimentar, de moderada à grave, nos últimos três anos. Outros 11% dos familiares relataram que suas crianças ficaram o dia todo sem comer porque não havia dinheiro suficiente para comida. Atualmente, uma das princi pais características dessa localidade é o clima, que representa uma das cinco regiões com as temperaturas mais quentes da capital carioca.

.

Reconhecer os moradores de áreas periféricas como protagonistas sociais e agentes de transformação nas pesquisas científicas atuais, sob perspectiva descolonial (CRUZ & OLIVEIRA, 2024), gera múltiplas possibilidades de contribuição para o entendimento da realidade. Descrever, relatar e organizar os saberes produzidos pelas classes periféricas e, mais do que isso, compreender como os sujeitos se apropriam do que faz sentido em suas vidas para criar o social e, com isso, o espaço geográfico, produz filosofias como a proposta pela “mecnologia”.


Atribuir o protagonismo sobre o levantamento e a análise dos dados a uma perspectiva interpretativa que contemple a visão de mundo dos povos subalternizados, minorias e periféricos de forma humanizada e empática implica em práticas metodológicas e no uso de referenciais teóricos que contribuam para as discussões em torno da decolonialidade. Ter o objeto de pesquisa como sujeito, e não como objeto propriamente dito, promove não somente a interação do pesquisador com os estudados, mas também o seu envolvimento social, emocional e político com o contexto e com o território da pesquisa.


Dialogar com esses sujeitos possibilita uma troca entre saberes e experiências acerca de como a globalização hegemônica e o seu meio de produção técnico-científico-informacional afetaram e afetam suas vidas, seus territórios e suas visões de mundo. A dinâmica de (re)significação e (re)designação de seu modo de vida torna possível identificar o potencial que esses novos saberes têm de nos direcionar a outros futuros possíveis, além da oportunidade de resgate de memórias coletivas e dissipadas, silenciadas ou até mesmo extintas da história a ser contada sobre o território e a sua sociedade local.


No mestrado, debrucei-me de forma complementar sobre os estudos antropológicos da globalização (EVANS, 2007; KNOWLES, 2014; RIBEIRO, 2015) e sua repercussão na nova divisão social do trabalho. Busquei, a partir de uma interpretação da trajetória intelectual e, consequentemente, pessoal do geógrafo Milton Santos, contribuir não apenas para o campo do Pensamento Social Brasileiro e suas discussões sobre raça e ascensão social, mas também para o avanço dos estudos de Santos no que tange à globalização e aos seus desdobramentos para a vida humana e a vivência em sociedade no mundo atual.


Em um mundo em que a ideia de integração global é cada vez mais pulverizada, sobretudo na internet e nas redes sociais, um dos aspectos que mais chamaram a minha atenção na teoria proposta pelo pensador é o de que a modernização da tecnologia tem gerado profundas transformações nos processos produtivos e nas estratégias de reprodução do capitalismo. Os impactos, fundamentalmente liderados pela revolução científica e tecnológica, têm provocado crises na estrutura interna das sociedades contemporâneas e nas relações internacionais, o que desmistifica a percepção de que a globalização seria uma dinâmica de interesse somente das grandes empresas e teria, como consequência, apenas o aumento da concorrência sob o viés econômico. Para o autor, pelo contrário, em virtude das atuais condições técnicas, que são uma base sólida para as ações humanas mundializadas, a globalização se impõe à maior parte da população como perversidade. De acordo com Santos, neste novo contexto: “Existem apenas duas classes sociais, as do que não comem e as do que não dormem com medo da revolução dos que não comem.”


Tendo em vista o meu profundo interesse de investigar o modo como — na prática — não só a escala global infere sobre a local (SASSEN, 2010), e vice-versa, mas como, a partir da apropriação da técnica e da tecnologia dominantes, é possível observar outras narrativas sobre a globalização (EVANS, 2007; SANTOS, 2000; SASSEN, 2010), este escrito constitui um desdobramento do estudo supracitado à medida em que almeja, mais do que refletir teoricamente, pesquisar efetivamente, de modo empírico, como o meio técnico-científico-informacional afeta o cotidiano da sociedade contemporânea, sobretudo dos sujeitos e comunicadores periféricos.


Partindo de uma concepção existencial do espaço, privilegiando a diversidade de manifestações culturais e artísticas, valorizando os diferentes saberes e abordagens da realidade vivenciada em sociedade, isto é, de uma concepção experiencial do mundo vivido, reconhecendo a pluralidade de concepções sobre o mundo, o território e o ser (CRUZ, 2021), continuar essa investigação de modo a materializar a observação desses efeitos em uma zona periférica carioca, em especial após a pandemia, permite também levantar e averiguar as novas narrativas, identidades e vivências nesse contexto.


Levando em consideração a importância das contribuições do geógrafo Milton Santos sobre o tema e a pesquisa realizada durante o mestrado, revisitar as categorias de análise forjadas pelo pensador, bem como entender as suas motivações e referências intelectuais para a elaboração de teorias e conceitos, cria a oportunidade não só de avaliar “se” e “como” a sua produção favorece (ou não) a interpretação da realidade vigente, mas também de contribuir para a continuidade de sua obra — especialmente no que tange ao seu sistema de ideias, epistemologia e noções como “revolta dos debaixo”, “outra globalização”, “consciência universal”, “período popular da história”, “globalitarismo”, “hierarquias escalares”, entre outros.


Mecnologia: os comunicadores antirracistas do Complexo do Alemão e o advento do período popular da História


É comum ver, nas letras de funk, gírias que surgem nas favelas do Rio de Janeiro se tornarem hits e circularem com certa normalidade e aceitação na maior parte dos bairros cariocas. Uma dessas inovações linguísticas oriundas dos becos e vielas é a palavra “mec”, popularizada em 2016 com o lançamento do MC TH, “Como tá a visão, tá mec”, que significa “ficar tranquilo” ou “suave”. Durante a música, o MC pergunta “como tá a visão?” a diferentes zonas da cidade de São Paulo, sendo respondido sempre com a expressão “tá mec”. A gíria, que já circulava nos grandes centros periféricos do Rio de Janeiro, passou a ser usada amplamente na mídia, inclusive por personalidades, artistas, atletas de futebol, cantores de outros gêneros musicais, entre outros.


O funk, mais do que um estilo musical, é uma manifestação cultural e artística popular reconhecida como Patrimônio Cultural de natureza imaterial pelo Estado do Rio de Janeiro. RIO DE JANEIRO (Estado). Projeto de Lei no 2.855, de 8 de julho de 2020. Reconhece o funk como manifestação da cultura popular e o declara Patrimônio Cultural de natureza imaterial do Estado do Rio de Janeiro. Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 8 jul. 2020.

O artista visual, roteirista e diretor Raphael Cruz, em 2018, introduziu pela primeira vez o neologismo “mecnologia”. Para ele, “mecnologia são soluções pensadas pelos jovens para resolver tensões do dia a dia, como tomar banho na caixa d’água para driblar o calor ou dar calote no BRT para resolver a falta de acesso ao restante da cidade”.


A partir de uma gravação realizada pelo Gato Mídia, espaço de aprendizado em mídia e tecnologia, em que moradores do Complexo do Alemão usavam óculos de realidade virtual e vivenciavam, pela primeira vez, uma história imersiva em 360o, crianças aparecem falando sobre o que era “ficar mec” na favela, conceituando a própria experiência como “a ciência da tranquilidade”. Seguir “tranquilo”, em busca de paz interior em meio ao caos gerado pelo capitalismo e pelas políticas de exclusão dos já marginalizados: mecnologia é um modo de vida. É a capacidade de sonhar com um outro futuro possível, acreditando em si mesmo. É um convite a uma vida de autonomia. É entender que a superação vem de dentro para fora e que o pensamento é força criadora. Nesta via, o primeiro mandamento é “ficar mec” e, quem sabe assim, começar a disseminar a filosofia, para dentro e para fora, de que a favela é um lugar de solução, e não de problemas.


A favela sempre foi um espaço de produção de conhecimento, de sobrevivência em um mundo caótico e de invenção de tecnologias sociais para resolver problemas de escassez de recursos e da ausência do Estado em proporcionar saneamento básico, educação de qualidade, saúde e segurança. As tecnologias sociais inventadas pela favela têm na gambiarra sua estética e principal ferramenta. Muito mais do que “faça você mesmo”, sempre foi “faça com o que tem”. Do mototáxi que resolve o problema de mobilidade, aos puxadinhos que resolvem os de moradia, ou o “gato net” criando acesso à internet, a periferia foi criando sua própria forma de estar na cidade, colocada à margem, mas se auto referenciando em suas próprias criações.


Com a globalização e o avanço exponencial da tecnologia, as tecnologias digitais têm se tornando mais próximas da realidade de pessoas comuns, seja por ter à mão um smartphone ou porque ter uma impressora 3D em casa já não é mais um sonho impossível. A periferia sempre falou por si por meio da música: no samba, no rap, no hip-hop ou no próprio funk. De vinte anos para cá, as favelas cariocas têm sofisticado o megafone, indo do rádio ao streaming, da fotografia à projeção mapeada, dos jornais comunitários à programação de sites, dos estúdios ao “faça você mesmo” no YouTube.


Atualmente, 90% dos jovens de favelas cariocas têm acesso à internet por computadores pessoais ou pelos próprios smartphones. Esse público não apenas faz download (baixar arquivo da internet), como também faz upload (enviar arquivos para a internet), colocando na rede não apenas sua produção de vídeo, fotografia e /ou música, mas também seu modo de vida, seu olhar sobre seu lugar de moradia, sobre o restante da cidade e do mundo. É o que acontece quando jovens participam do Gato Mídia e aprendem a programar: eles começam a criar jogos que falam sobre suas vivências e questionam problemas que enfrentam em seu dia a dia.


Além do acesso à internet dentro da favela, o uso das redes sociais e a possibilidade de aprender a programar vendo tutoriais no YouTube têm possibilitado que as camadas populares ampliem sua voz para o mundo em grande escala, seja reivindicando direitos sociais, produzindo arte, tecnologia ou se conectando com jovens de outras favelas do Brasil e do mundo.


A potência dos pobres dos espaços metropolitanos advém de uma intensa comunicação que escapa ao controle do território normado e pelo fato de que a população local conta com acesso precário ao meio técnico-científico-informacional. A cidadania, por não ter sido uma etapa do seu processo de formação histórica, provoca seu encontro com a globalização como consumidor mais que perfeito, que é um cidadão imperfeito. Isso cria uma necessidade de sobrevivência que resulta em uma profícua comunicação e que aponta, na maioria das vezes, para um futuro alternativo (SANTOS, 1990, 1996, 1997, 1998, 1999, 2000a, 2000b, 2002; SANTOS; SILVEIRA, 2001) (DIAS, 2021, p. 222).

Em um cenário de permanente invisibilidade dos territórios periféricos e, consequentemente, da falta de dados e de conhecimento não fictício, estereotipado ou romantizado sobre esses sujeitos e suas vivências no país, desenvolver uma pesquisa que visa não apenas investigar como a vida dessa população foi e é transformada pela presença do meio técnico-científico-informacional em seu cotidiano, mas também desvelar a percepção dos próprios sujeitos sobre tal realidade, principalmente em um mundo pós-pandêmico, possibilita identificar meios possíveis para a construção de uma nova globalização, bem como atualizar a teoria miltoniana, dando luz ao período popular da história.


Milton Santos desenvolve uma teoria que define o espaço geográfico como a reunião dos sistemas de objetos e sistemas de ações (SANTOS, 1999) e, a partir do próprio pressuposto, propõe que seja, dentro da análise dialética, uma das instâncias da análise social, principalmente depois que a globalização econômica começa a privilegiar os lugares em busca de lucros; mas, ao mesmo tempo, tais lugares, na medida em que passam a ser objetos da cobiça de lucros, são espaços de resistência, sobretudo nas metrópoles dos países do Terceiro Mundo. Ocorre que, pela grande densificação dos pobres e por sua comunicação escapar do controle das verticalidades, e por viverem no reino da necessidade, essa comunicação se processa como uma imposição da sobrevivência (DIAS, 2021, pps. 219-220).

Apesar da territorialidade e de demais aspectos socioespaciais, por meio do Gato Mídia é possível evidenciar a apropriação dos meios de comunicação de massa pela população do Complexo do Alemão. Um exemplo disso é a série Minha Quebrada, produzida em 2020, na qual a reprodução da voz local é globalmente difundida, sem intermediários. O Yahoo estreou a série em parceria com diversas produtoras espalhadas pelas periferias do Brasil, entre elas, o Gato Mídia.


Pretos, indígenas, pobres, nordestinos, quilombolas, geraizeiros, ribeirinhos, populações tradicionais e outras populações tradicionais que se apropriam da técnica e da tecnologia vigentes como meio de resistência e propagação de uma ideologia inovadora, criativa, original, produzida a partir da escassez e da ausência, foram previstos pelo geógrafo brasileiro Milton Santos ao sugerir que, com a globalização, os pobres teriam acesso aos meios de produção e realizariam o que ele denominou de “revanche das periferias”.


[...] A gestação do novo, na história, dá-se frequentemente, de modo quase imperceptível para os contemporâneos, já que suas sementes começam a se impor quando ainda o velho é quantitativamente dominante. É exatamente por isso que a “qualidade” do novo pode passar despercebida... A história se caracteriza como uma sucessão ininterrupta de épocas. Essa ideia de movimento e mudança é inerente à evolução da humanidade. É dessa forma que os períodos nascem, amadurecem e morrem [...] (SANTOS, 2000, p. 141).

Para o pensador, os atores capazes de mudar a história são os de baixo. Eles, segundo Santos, agirão de baixo para cima. Ou seja, o geógrafo não previa uma revolução sincronizada, mas afirmava: “haverá explosões aqui e ali em momentos diferentes, mas que serão impossíveis de conter." Segundo Milton Santos (2000, p. 145), “a globalização constitui o estágio supremo da internacionalização, a ampliação em sistema-mundo” de todos os lugares e de todos os indivíduos, embora em graus diversos”. Tal ideologia de mundo global cria a impressão de que a informação é instantânea e ao alcance de todos, em tempo real. Contudo, nem todos os lugares recebem a mesma carga técnica-científica-informacional, isto é, nem todos os territórios são utilizados e artificializados homogeneamente, muito pelo contrário.


Há grandes atores que determinam esse “tempo real”, exercendo controle sobre sua velocidade e o discurso que o legitima, informando como ele deve ser utilizado, por exemplo. Por isso, essa realidade só existe em potencial. Na prática, o uso dessa informação se dá de acordo com os privilégios dos atores que a ela têm acesso, reforçando diferenças sociais e garantindo exclusividades. Essa face fantasiosa da globalização é apresentada por Milton Santos (2000) como o mundo tal como nos fazem crer. De acordo com o autor, diante da repetição constante de determinadas informações, elas se tornam interpretações aparentemente inabaláveis. As ideias que regulam as condutas vigentes são formuladas para manter em ordem os elementos fundamentais do mecanismo atual.


Na tentativa de integração ao mercado internacional globalizado, poucos recortes territoriais foram eleitos como “competitivos” e, por isso, receberam altas densidades técnicas, científicas e informacionais, típicas do período. Geralmente, esses espaços são ocupados por grandes firmas internacionais ou nacionais que, por força de vários mecanismos, eliminam qualquer empecilho às suas ações. Neste processo, o Estado atua como um grande facilitador, implicando diretamente em geografias marcadas pela desigualdade. Na fase atual há:


“uma ordem global” que implica numa “ordem geográfica” imposta aos lugares, que devem se adequar às demandas em voga para se tornarem atrativos e acolhedores ao uso dos “agentes hegemônicos globais”. Porém, na realidade, nem todos conseguem inserção no seletivo circuito espacial dos lugares competitivos, reatando uma situação de marginalidade, dando o tom desafinado frente à pretensa harmonia orquestrada pelos que defendem a afinação perfeita da globalização, produtora de “maravilhas sonoras” induzidas aos diferentes povos nos mais diferentes lugares. Ora, na prática temos como resultado da globalização uma fragmentação territorial, acompanhada por perversidades com implicações em diferentes sentidos e consequências nas relações sociais e na condição humana (VASCONCELOS, 2016, p. 121).


O Estado costuma ter uma atuação permissiva e facilitadora, ou promotora, por meio de políticas “neoliberais”, que impõe adequações à norma. Contudo, a outra face da globalização resiste. “Os espaços marginalizados fazem parte da mesma lógica global capitalista e não escapam do processo de mercantilização das relações e de exploração, apenas não são o “filé” para o grande capital.” (Ibidem, p. 51). Trata-se de uma situação, inclusive, que pode (ou não) mudar em curto espaço de tempo, a depender da lógica do sistema capitalista vigente. Essa contradição se expressa socioespacialmente e é considerada como uma vantagem por Milton Santos (2000).


O mundo apresentado tal como ele é nos direciona o olhar para uma globalização marcada pela perversidade. Santos (2000) denuncia que as grandes multinacionais, as transnacionais, as corporações, os conglomerados produtivos iniciaram a globalização décadas atrás. Por meio dos objetos, a ideologia não apenas se faz presente, como também se materializa, convocando um tipo específico de comportamento, conivente com o discurso manipulado e insistentemente propagado.


O ponto central é que apenas as corporações conseguem obter lucro e vantagem do processo da globalização tal como ele é estruturado. Santos aponta uma crescente inserção das ciências e do meio informacional na forma como as produções espaciais ocorrem. Para o geógrafo (2000), a originalidade do período reside na técnica da informação: ela não só permite a comunicação entre todas as técnicas, como também acelera o processo histórico, determinando o uso do tempo e assegurando a convergência dos acontecimentos em todos os lugares do mundo.


No entanto, Milton Santos não é contrário à globalização em si, mas sim ao tipo de globalização vigente: uma globalização que serve única e exclusivamente aos interesses econômicos. O atual período da globalização, na mesma medida em que cria e reproduz ilusões e um imaginário social cada vez mais refinado, fomenta, na realidade, a escassez e a perversidade, principalmente sobre os sujeitos periféricos. São justamente esses atores sociais que, a partir das dificuldades, criam outras maneiras de viver e ressignificar sua experiência em sociedade.


Identificar o papel da ideologia por meio da imprensa e, atualmente, das redes sociais, como instrumentos de propaganda a serviço de grupos específicos expõe a ideia de globalitarismo (SANTOS, 2000). Com a elaboração das ideias cada vez mais centralizada e manipulada pelos interesses das grandes empresas, a violências estrutural e a perversidade sistêmica, nas quais a competitividade e a potência (entendida aqui como a falta de solidariedade ou a prevalência sobre os outros) se unem à ideologia neoliberal, fazem parecer normais as exclusões sociais.


Estudar dinâmicas socioespaciais que apontam para uma outra globalização supõe uma mudança radical das condições atuais, de modo que a centralidade de todas as ações esteja localizada no ser humano: a precedência do homem. De acordo com o geógrafo Milton Santos, essa desejada mudança ocorrerá apenas no fim do processo, durante o qual sucessivos reajustamentos se imporão até que, enfim, uma nova relação sistêmica e mundial possa emergir.


A força e o papel da ideologia são reconhecidos por Santos, que busca valorizar e explorar a comunicação e a construção de narrativas sob perspectiva local. Nesse sentido, a “mecnologia” emerge mais do que como um conceito popular forjado na periferia carioca, influenciado pelo funk e pela tecnologia na origem da palavra, mas como uma filosofia do bem viver em contexto periférico. Nela, a dimensão espacial, socioambiental e política do território, por meio de suas tramas, tradições, rupturas e percursos históricos, converge para a gestação do novo.


Tal perspectiva teórica reconhece o processo de globalização como uma dinâmica em disputa, com pilares econômicos e técnicos, mas, sobretudo, com fundamentos ideológicos. A importância do discurso e da criação de novas narrativas sobre a realidade vivenciada no dia a dia globalizado nos permite, enquanto pesquisadores e geógrafos, refletir sobre o modo de ser, a experiência e a prática espacial. Isto é, possibilita inverter a lógica epistemológica vigente e colocar a escala local no centro das análises — não que seja possível dissociá-las, mas torna possível protagonizar a vida e a realidade palpável, em vez daquela meramente ideológica e imaginada.


A infraestrutura criada pelo capitalismo global deixa de funcionar apenas servindo à reprodução desta ordem global, para permitir que aflorem atores e lutas engajados em questioná-la. Estes “atores globais” que emergem estão situados em localidades específicas, mas compõem redes sociais e esferas públicas de âmbito mundial. Como resultado, estes atores que são locais pelas lutas que travam e pelo espaço que os circundam acabam por integrar lutas e espaços transfronteiriços (ALMEIDA; MACIEL, 2011, p. 289).

As novas práticas e técnicas políticas engendradas pela própria globalização e pelas novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) viabilizam a atuação de áreas periféricas em escala local, constituindo um processo que pode impactar a geografia estabelecida. A política local, que a priori estaria enfraquecida no contexto da globalização, pode, diante desse cenário, ser potencializada, assim como significados e imaginários globais podem se difundir a partir desses territórios e, deles, emergir. Apreender os espaços — virtuais e físicos — e suas potencialidades enquanto práticas e culturas recoloca os desafios para o manejo de noções como fronteira, escala e lugar, ao mesmo tempo em que delineia-se o objeto de uma geograficidade dos espaços digitais globais, que inserem novos atores sociais na arena política da globalização.


Para Santos (2000), a partir de um pensamento próprio, fundamentado na realidade vivenciada diariamente em sociedade, seria possível desenvolver novas tecnologias e superar a condição atual. “Os elementos necessários para a representação de novas tecnologias em países periféricos deve ser analisada através das reais estruturas existentes nessa sociedade.” (SANTOS, 1987). Por isso, o professor evidencia que ter “informação é poder; instrumento essencial do poder”. A informação não é neutra e torna-se o “meio racional de governar” as sociedades e seus territórios. A informação tem seu custo estabelecido pelas agências de notícias (SANTOS, s.d.).


Está é uma das bases do subsistema ideológico que comanda outros subsistemas da vida social, formando uma constelação que tanto orienta e dirige a produção da economia como também a produção da vida. Essa nova lei do valor – que é uma lei ideológica do valor – é uma filha dileta da competitividade e acaba por ser responsável também pelo abandono da noção e do fato da solidariedade. (SANTOS, 2000, p. 24).

Evidenciando o potencial criativo das trajetórias dos atores sociais, o autor constrói um olhar direcionado à forma como as pessoas vivem a globalização, isto é, como os indivíduos lidam com ela em sua rotina, ressaltando e valorizando a agência humana. Desse modo, além de realçar o papel atual da ideologia na produção da história, Santos mostra os limites desse discurso frente à realidade vivida pela maior parte das nações e coloca em mira os jogos de poder e as relações de força que se processam nos campos de disputa locais e globais, à medida que se torna evidente o lugar do Estado na formação e estruturação desses mercados.

“Talvez, o fato que esses 50 anos criaram também uma multidão de excluídos. Isso ajuda, creio eu, e digamos, a criar, digamos, a oposição entre os que têm e que estão tranquilos porque têm, e os que não têm e são permanentemente intranquilos e que isso alimenta, eu creio, uma oposição que é criadora.” (Entrevista de Milton Santos dada ao Programa Conexão Roberto D’Ávila, em 1998) (VITORINO, 2018, p. 167).

Considerações finais


O conjunto das práticas mencionadas apresenta-se como o fator de resistência cotidiana, garantindo a existência dos territórios e comunidades populares em uma realidade marcada por tensões e carências de diversas ordens, mas que, ao mesmo tempo, encontra nas redes de comunicação a possibilidade de enxergar o futuro. São práticas que se renovam, desaparecem ou emergem como novas, em uma dinâmica regulada pela necessidade dos pobres. Essas práticas não se restringem ao Complexo do Alemão, podendo ser observadas em outras localidades, conforme apontam vários autores, em pesquisas realizadas em territórios periféricos do Sul Global.


A comunicação diferenciada dos pobres ocorre quando não se submete à lógica da comunicação dominante do meio técnico-científico-informacional. Neste trabalho, destaca-se o caso de um grupo de comunicadores negres que constroem coletivamente uma rede de proteção frente à violência interna desses territórios, à ausência do Estado e às verticalidades da globalização.


Ao admitir a proposição miltoniana de que dois períodos históricos coexistem na atualidade, de um lado o período dominado pela globalização e pelo meio técnico-científico-informacional, que são hegemônicos, e, de outro, o período popular da história, como expressão de oposição àquele, torna-se necessário incorporar o espaço geográfico como uma das instâncias da análise social, a fim de compreender essa simultaneidade complexa. A pesquisa sociogeográfica sobre o cotidiano dos pobres que habitam os territórios populares nas grandes cidades brasileiras revela-se como uma possibilidade de pesquisa para entender as manifestações e ações da globalização, bem como o seu contraponto: a comunicação dos pobres negres.


A prioridade dos comunicadores deve ser ouvir a voz dos sujeitos envolvidos na produção e na propagação da mecnologia e, por conseguinte, na territorialidade que ela constitui. Isso contribui para a esquematização, a caracterização, a discriminação, o esboço, a organização e os relatos de como as experiências de articulações sociais, sempre em movimento, se configuram, não apenas no contexto de globalização, mas, mais especificamente, diante do papel que o meio técnico-cientifico-informacional exerce em nossas vidas e de como as ideologias se infiltraram com mais força no imaginário social, por meio da informação e da comunicação. Ou seja, essa escuta torna possível identificar como atuam as configurações socioespaciais no período popular, que se constituem em espaços de conformação de subjetividades e de redesenho do espaço e da comunidade por meio dessas experiências de articulação.




Comentários


CMBN.Logo.Vertical.Negativo.png
Comunicação baseada em Inovação, Raça e Etnia

INSCREVA-SE NA NEWSLETTER MAIS ANTIRRACISTA DO BRASIL!

ENDEREÇO

Rua da Mouraria, 74, Nazaré

Salvador, Bahia, 40040-090

© 2025 | Instituto Commbne
Desenvolvido por CALÚ Comunicação Criativa

bottom of page