A MÍDIA NEGRA ENQUANTO DISPOSITIVO COMUNICACIONAL ESTRATÉGICO NAS MOBILIZAÇÕES COLETIVAS
- Commbne

- 3 de jun.
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Resumo
Este ensaio faz uma breve introdução aos estudos sobre as mídias negras, a partir de seu papel estratégico nas lutas emancipatórias e na preservação da memória, tradições e saberes dos povos negro-africanos. Nosso mirante de investigação parte das bases epistemológicas oferecidas pelo paradigma da Afrocentricidade (ASANTE, 2009; MAZAMA, 2009), compreendendo a agência negro-africana e a África como epicentro das nossas análises. Trata-se de um experimento sankofa, que nos permite identificar a Mídia Negra (PINHEIRO, 2019; VELOSO E ANDRADE, 2021) enquanto um dispositivo que marca a continuidade da imprensa negra.
Para tanto, trazemos para o debate os estudos em midiatização (CARVALHO, 2023; HEPP, 2014; SODRÉ, 2006), a fim de compreender como os processos comunicacionais das mídias negras têm se materializado a partir das apropriações feitas no contexto digital. O texto propõe uma revisão teórica, de caráter crítico-analítico, sobre o papel da mídia negra e sua contribuição para o campo da comunicação na Améfrica Ladina. Desse modo, apontamos que o modus operandi da mídia negra parte de uma ética antirracista e empreende — enquanto matriz cultural e comunicativa — o que estamos chamando de Comunicação Quilombista.
Palavras-chave: Comunicação; Quilombo; Mídia Negra; Midiatização; Amefricanidade.
Introdução
A presença crescente das tecnologias digitais no cotidiano brasileiro, marcada pela onipresença de smartphones e pela expansão da internet, tem transformado profundamente as práticas comunicacionais e as formas de engajamento social. Nesse cenário, a mídia negra emerge como um dispositivo comunicacional estratégico que atua não só na preservação da memória e cultura negro-africana, mas também como uma ferramenta de luta e resistência contra o racismo estrutural.
A mídia negra, enquanto fenômeno contemporâneo, se apropria dessas tecnologias para construir narrativas que valorizam e reafirmam identidades negras, estabelecendo um diálogo crítico com a sociedade e promovendo uma ética antirracista.
Neste ensaio, propomos uma reflexão sobre o papel da mídia negra, explorando suas bases epistemológicas a partir da afrocentricidade (ASANTE, 2009; MAZAMA, 2009; NOGUEIRA, 2010) e seus impactos no campo da comunicação na Améfrica Ladina (GONZALEZ, 2018). Isso é particularmente relevante no contexto da midiatização (SODRÉ, 2006; HEPP, 2014), pois entendemos que se trata de um fenômeno que descreve a profunda influência dos meios de comunicação na sociedade.
A experiência de acessar o cotidiano de diversas pessoas por meio das redes sociais digitais em tempo real é apenas um dos horizontes possíveis na internet. Em vista dos estudos acerca da imprensa e mídia negra (PINHEIRO, 2019), é possível identificar um interesse estratégico na apropriação dos aparatos técnicos para a ampliação e circulação das ações comunicacionais desempenhadas por essas organizações. Nessa direção, buscamos fazer uma revisão teórica, de caráter crítico-analítico, acerca dos aspectos históricos e práticos das mídias negras em um contexto transformado pelas tecnologias digitais.
As mídias negras, ao se inserirem nesse contexto, não apenas resistem às narrativas dominantes, mas também criam novas formas de sociabilidade e significação da informação. No entanto, esse engajamento não está isento de desafios. A sustentabilidade e a regulação das plataformas digitais são questões críticas que afetam a produção de conteúdo e a visibilidade desses dispositivos de mídia. A abordagem afrocêntrica nas análises midiáticas oferece um caminho para entender como as mídias negras resistem e reconfiguram as práticas comunicacionais no contexto digital.
Para direcionar nossas análises, assumimos o compromisso de refletir sobre o papel das mídias negras enquanto um dispositivo estratégico nas lutas emancipatórias por direitos. A partir disso, tomamos como objetivos específicos discutir as contribuições dessas mídias para o enfrentamento às desigualdades raciais e às questões ambientais. Nesse cenário, trazemos para o debate a constituição da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), enquanto sujeito político, e sua articulação pela garantia da terra (BRITO, 2024).
Segundo apresenta Brito (2024), os povos quilombolas estão distribuídos em cerca de seis mil comunidades, principalmente em áreas rurais do Norte e Nordeste. Vale ressaltar que o Censo Demográfico 2022 foi o primeiro recenseamento a reconhecer a identidade étnica dos povos quilombolas, tornando-se uma medida significativa para o pertencimento e a visibilidade desses territórios. Os dados da pesquisa (IBGE, 2022) apontam que são cerca de 1.327.802 quilombolas em todo o território nacional.
Em suma, este é o ponto de partida para as reflexões propostas no desenvolvimento desta investigação. Entendemos que as mídias negras emergem conectadas às plataformas digitais, tendo em vista seus usos e apropriações estratégicas nas lutas emancipatórias e antirracistas, dando continuidade à sua matriz comunicativa e simbólica. Por isso, destacamos uma abordagem da comunicação social alicerçada nos pilares epistemológicos da afrocentricidade.
Aspectos históricos e práticos
A mídia negra, desde suas origens na imprensa negra do século XIX até suas manifestações atuais nas plataformas digitais, desempenha um papel fundamental na construção e disseminação de narrativas que contrastam com o discurso hegemônico. Historicamente, a imprensa negra — como O Homem de Côr — serviu como uma plataforma para a população afrodescendente expressar suas demandas por direitos e visibilidade, atuando como um espaço de resistência e mobilização.
O conceito de quilombo representa essa resistência e a luta pela preservação da cultura e dos direitos das comunidades negras. No contexto digital atual, o “aquilombamento virtual” se materializa por meio das mídias negras, que utilizam a internet e os dispositivos móveis para recriar esses espaços de resistência e promoção de identidades. A afrocentricidade, como proposta por Asante (2009) e Mazama (2009), fornece o arcabouço teórico que coloca a experiência e a perspectiva negro-africana no centro das análises, permitindo uma compreensão crítica dos processos comunicacionais e da agência negra na era da midiatização.
Nesta perspectiva a imprensa e as mídias negras são algumas destas estratégias que visam a este deslocamento nas estruturas de poder, e que tendem a conquistar espaço para as suas pautas e lutas, diante dos processos de dominação. É verdade também, e porém, que os espaços conquistados para a diferença são poucos e dispersos, devidamente policiados e regulados. O fato de nos debruçarmos sobre essas estratégias de luta e a entendermos como um processo positivo frente às disputas culturais não pode nos fazer perder de vista que, apesar das pressões e dos confrontos dentro do campo cultural, estas estratégias farão parte de uma liberdade vigiada (PINHEIRO, 2019, p. 34).
Os estudos sobre midiatização (CARVALHO, 2023; HEPP, 2014; SODRÉ, 2006) ajudam a entender como as práticas midiáticas se transformam e se adaptam às novas tecnologias. A mídia negra, ao se apropriar dessas inovações, expande suas estratégias de aquilombamento, utilizando a internet como ferramenta para disseminar informações, organizar mobilizações e construir uma narrativa contra-hegemônica que promove a valorização da cultura negra e a luta contra o racismo.
O reconhecimento do legado e da continuidade dos processos comunicacionais elaborados pela imprensa negra na contemporaneidade, a partir das mídias negras, não apenas narra histórias esquecidas ou marginalizadas, mas também cria novas formas de organização e mobilização, cruciais para a luta por um futuro mais justo e igualitário. Portanto, a mídia negra deve ser entendida como um dispositivo estratégico, capaz de mobilizar e (re)produzir a materialidade histórica que corresponde ao contexto cultural em que estamos inseridos — os mundos midiatizados.
Podemos tomar os mundos midiatizados de cenas culturais populares, como o hip-hop, o heavy metal ou o techno, como exemplos: a articulação de seus mundos midiatizados são uma segmentação e um processo de (re)invenção. Pesquisar os mundos midiatizados, portanto, implica também investigar a passagem de um mundo midiatizado ao outro, assim como os processos de demarcação (HEPP, 2014, p. 55).
Transformações sociais e estratégias comunicacionais na era digital
A popularização dos dispositivos móveis e da internet trouxe mudanças significativas na forma como as mídias negras operam e se articulam. Essas tecnologias ampliaram o alcance e a eficácia das estratégias comunicacionais, permitindo que as vozes negras se tornem mais visíveis e influentes na esfera pública. As redes sociais e outras plataformas digitais oferecem às mídias negras a oportunidade de contornar as limitações impostas pelos meios de comunicação tradicionais, que, muitas vezes, invisibilizam ou distorcem as demandas das comunidades negras.
As mídias negras adotam diversas estratégias para maximizar seu impacto. Entre elas, destaca-se a utilização de campanhas virais, hashtags, vídeos educativos e transmissões ao vivo para mobilizar e engajar o público. Essas práticas não apenas ampliam o alcance das mensagens, como também facilitam a formação de comunidades virtuais de apoio e resistência. A partir das discussões levantadas por Pinheiro (2019) e Veloso e Andrade (2021), pode-se afirmar que o aquilombamento midiático exemplifica essa abordagem ao promover uma ética antirracista que valoriza a memória e a cultura negro-africana, adaptando-se ao contexto digital para fortalecer a luta por direitos e justiça.
A relação entre os objetivos da pesquisa e os saberes afro-brasileiros ou indígenas é fundamental para compreender as dinâmicas de resistência e preservação cultural dessas comunidades no contexto da comunicação contemporânea. O estudo das mídias negras e suas práticas organizativas baseia-se no reconhecimento da importância dos saberes ancestrais afro-brasileiros e indígenas na formação de identidades e na luta por direitos.
Essa justificativa é articulada com base em três pontos principais: a valorização da memória histórica, a resistência às narrativas dominantes e a construção de uma comunicação antirracista e anticolonial.
É uma reflexão oportuna, à medida que compreendemos que as discussões sobre a democratização do acesso à internet no Brasil precisam avançar, do mesmo modo que as propostas de regulamentação das políticas de uso e de governança. Ao reconhecermos o papel da mídia negra enquanto matriz cultural e comunicativa, destacamos questões como a própria articulação e virtualização das agendas promovidas pelos movimentos sociais na luta por direitos e contra as opressões. Outrossim, sabemos do papel central da comunicação no processo de formação e manutenção das identidades.
O Movimento Negro ressignifica e politiza a raça, compreendendo-a como construção social. Ele reeduca e emancipa a sociedade, a si próprio e ao Estado, produzindo novos conhecimentos e entendimentos sobre as relações étnico-raciais e o racismo no Brasil, em conexão com a diáspora africana (GOMES, 2017, p. 38).
A preservação da memória histórica é um dos pilares centrais tanto dos saberes afro-brasileiros quanto indígenas. Essas comunidades possuem uma longa tradição de resistência e sobrevivência, onde a oralidade, as práticas culturais e os conhecimentos tradicionais desempenham um papel crucial. Ao investigar as mídias negras no contexto digital, esta pesquisa objetiva mapear e entender como esses conhecimentos são mobilizados e preservados.
Nesse sentido, a valorização da memória histórica implicada nas dinâmicas das mídias nos possibilita reconhecer as contribuições das comunidades quilombolas, como os quilombos, que historicamente se organizaram para preservar a cultura e resistir às opressões coloniais (NASCIMENTO, B., 2018).
Esse reconhecimento é essencial para compreender como as mídias negras contemporâneas se posicionam como continuadoras dessa herança, utilizando as plataformas digitais para narrar histórias frequentemente ignoradas pelas mídias hegemônicas.
Os saberes afro-brasileiros e indígenas sempre enfrentaram marginalização e silenciamento por parte das narrativas dominantes. A pesquisa sobre as mídias negras constitui, portanto, uma forma de resistência a essas narrativas eurocêntricas que historicamente monopolizaram os meios de comunicação.
O paradigma da Afrocentricidade, proposto por Asante (2009), oferece uma lente crítica para desafiar essas epistemologias dominantes e recentralizar as perspectivas negro-africanas. Da mesma forma, a comunicação quilombista emerge como prática de resistência que se contrapõe às representações estigmatizantes e reducionistas da população negra e indígena.
Ao investigar como as mídias negras utilizam dispositivos digitais para recontar suas histórias, esta pesquisa contribui para descolonizar a comunicação e promover uma representação mais justa e inclusiva.
Os afrocentristas reconhecem a influência de uma ampla gama de teorias, e seu alcance teórico se estende das diversas comunidades discursivas do continente africano até o Caribe, entrecruzando, literalmente, de um lado para o outro, as arenas acadêmicas da América e da Europa. Tipicamente, os textos afrocêntricos colocam o pensamento de W. E. B. Du Bois, Anna Julia Cooper, Cheikh Anta Diop e Frantz Fanon ao lado do de Kwame Nkrumah, Malcolm X, Amílcar Cabral, Walter Rodney, Ella Baker e Maulana Karenga, sintetizando os elementos mais emancipadores do trabalho desses e de outros pensadores numa estrutura conceitual coerente (RABAKA, 2009, p. 130-131).
Os objetivos desta pesquisa estão intrinsecamente ligados à construção de uma comunicação antirracista e anticolonial, alinhada com as lutas emancipatórias dos movimentos sociais negros e indígenas. A mídia negra contemporânea atua como um dispositivo politizado que busca não apenas visibilizar as histórias e culturas negras, mas também combater as desigualdades estruturais e as violências raciais.
Ao examinar as práticas midiáticas dos coletivos negros, a pesquisa identifica como essas mídias contribuem para a construção de uma ética antirracista, valorizando a identidade negro-africana e promovendo a justiça social. Esse enfoque é essencial para entender como as mídias negras se organizam em plataformas digitais, criando novas formas de participação e mobilização, fundamentais para a luta contra o racismo e a opressão.
A democratização do acesso às tecnologias digitais é um elemento crucial para a articulação dos saberes afro-brasileiros e indígenas no contexto midiático contemporâneo. As mídias negras, ao se apropriarem dessas tecnologias, transformam os modos de produção e circulação da informação, possibilitando a virtualização das lutas antirracistas e a criação de novas formas de aquilombamento digital.
Esse processo não apenas fortalece as identidades culturais, mas também amplia as redes de apoio e solidariedade, permitindo uma maior participação das comunidades na produção midiática. Esta pesquisa objetiva entender essas dinâmicas e destacar como a comunicação digital pode ser utilizada como uma ferramenta poderosa de resistência e emancipação.
Portanto, a pesquisa sobre mídias negras, analisada no contexto da midiatização, possibilita teorizar uma abordagem afrocêntrica que contribua para a construção de uma epistemologia comunicacional, reconhecendo e valorizando os saberes afro-brasileiros e indígenas. Ao tensionar as bases epistemológicas universalistas, esta pesquisa propõe uma abordagem mais inclusiva e diversa, que reflita as realidades e experiências dessas comunidades.
Essa abordagem é essencial para o desenvolvimento de uma prática comunicacional verdadeiramente democrática e comprometida com a justiça social.
Principais resultados
A prática midiatizada da mídia negra apresenta tanto potencialidades quanto limitações no contexto das lutas ambientais quilombolas. Entre suas principais potencialidades, destaca-se a capacidade de mobilizar rapidamente comunidades para ações de protesto e conscientização, utilizando a internet como plataforma para denunciar práticas de racismo ambiental e reivindicar direitos territoriais.
Além disso, a mídia negra contribui significativamente para a preservação da memória e da cultura das comunidades quilombolas, promovendo narrativas que celebram e protegem suas tradições e modos de vida.
No entanto, essas práticas também enfrentam desafios significativos. A dependência de plataformas digitais, muitas vezes controladas por grandes corporações, pode limitar a autonomia e comprometer a eficácia das estratégias comunicacionais das mídias negras. A censura e a desinformação constituem riscos constantes, capazes de minar os esforços de mobilização e resistência.
Além disso, a acessibilidade digital ainda é uma barreira em muitas comunidades quilombolas, que nem sempre possuem o mesmo acesso à infraestrutura tecnológica necessária para participar plenamente dessas práticas midiatizadas.
Tendo como eixo a luta antirracista, essas experiências são auto-organizadas para estabelecer vínculos de acolhimento, reconstrução histórica, memória, identidade, representatividade, práticas de consumo e sociabilidade por meio da produção midiática, podendo, dessa forma, ser consideradas formas de aquilombamento virtual midiático (VELOSO; ANDRADE, 2021, p. 8).
Considerações
A mídia negra, ao se configurar como um dispositivo comunicacional estratégico, desempenha um papel vital na articulação e promoção de narrativas que valorizam a cultura e a identidade negra, ao mesmo tempo em que enfrenta o racismo e promove a justiça social. A adoção da afrocentricidade como base epistemológica proporciona uma perspectiva que centra a experiência e a agência negro-africana, desafiando as narrativas dominantes e propondo uma comunicação que é, em essência, antirracista e emancipatória.
No contexto das lutas ambientais quilombolas, a mídia negra demonstra seu potencial ao mobilizar comunidades e denunciar práticas injustas, mas também enfrenta desafios que precisam ser superados para maximizar seu impacto. A mídia negra surge como uma matriz cultural e comunicativa (PINHEIRO, 2019), que ressignifica os espaços midiáticos, reforçando a resistência e a coesão social das comunidades negras.
A capacidade de adaptação e inovação das mídias negras, ao utilizar as tecnologias digitais para promover suas causas, exemplifica uma nova era de engajamento e mobilização, na qual a preservação da memória e a luta por justiça continuam a ser impulsionadas por narrativas que são tanto locais quanto globais.
Assim, a mídia negra se afirma como um dispositivo comunicacional estratégico na construção de um futuro mais justo e inclusivo.
Esse artigo faz parte da publicação Olhares Insurgentes da Améfrica Ladina




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