Por que o jornalismo ainda teme falar de racismo?
- COMMBNE

- 17 de nov. de 2025
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O silêncio não é neutralidade — é estrutura
Desde a profissionalização da imprensa no Brasil, as redações foram historicamente ocupadas por homens brancos, de classe média, formados em universidades que reproduzem o mesmo repertório cultural, político e estético. Essa homogeneidade não é um detalhe: ela define o que ganha valor de notícia, de urgência e de credibilidade.
Como importa sempre lembrar, não há narrativa inocente. A notícia é um recorte do mundo e, por isso, é sempre atravessada por quem recorta. Quando o racismo não é nomeado, ele não desaparece: ele se desloca para as entrelinhas. É ali que ele opera com mais força, decidindo quem fala, quem é silenciado e quem aparece apenas como “suspeito”, “elemento” ou “indivíduo”. É o silêncio que organiza as hierarquias.
Racismo não é exceção: é o sistema que estrutura a cobertura
Apesar de décadas de debate público, o jornalismo brasileiro ainda trata o racismo como um caso isolado, uma anomalia, um problema externo ao campo. Mas o racismo é justamente o sistema que define o que se diz e o que se cala.
A escolha das palavras revela essa engrenagem:

– A frase na voz passiva apaga o Estado como agente de violência.
– O termo genérico desloca responsabilidade.
– A descrição seletiva do corpo negro naturaliza quem deve ser visto como ameaça.
Lélia Gonzalez já denunciava esse processo nos anos 1980, chamando-o de ideologia do branqueamento: uma forma de organização simbólica que toma o olhar branco como universal e transforma todos os outros em desvio, margem, exceção. O jornalismo, ao não confrontar essa matriz, acaba por reproduzi-la.
Imparcialidade não é neutralidade: é escolha de posição
Durante décadas, o campo jornalístico se apoiou na noção de imparcialidade, frequentemente confundida com a falsa ideia de que existe um olhar neutro. Mas toda narrativa é atravessada por classe, raça, gênero e território.
Assumir um olhar racializado não compromete a ética jornalística; ao contrário, amplia a verdade. É reconhecer que a escolha das palavras é sempre política. E que apagar o racismo, na prática, significa naturalizar a barbárie.
A crença na neutralidade funciona como tecnologia de manutenção do poder: ela sustenta o mito de que o olhar branco é universal, objetivo e confiável — enquanto os demais são “militantes”, “interessados” ou “emocionais”.
Os dados mostram: quem conta a história ainda é quase sempre branco
Em 2023, um levantamento do GEMAA/UERJ analisou os três maiores jornais do país — Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo — e revelou:
84,4% dos profissionais que escrevem nesses veículos são brancos.
Apenas 3,4% são pretos e 6,1% são pardos.
Nas colunas de opinião, espaço onde agendas se formam e narrativas se consolidam, as vozes negras praticamente inexistem.
Isso não é apenas um problema de representatividade. É uma questão de democracia comunicacional: quando apenas um grupo conta a história, apenas uma visão de mundo é legitimada.
O que é, então, uma comunicação antirracista?
Uma comunicação antirracista não se resume a inserir pessoas negras na pauta ou a “diversificar” personagens. É uma mudança de estrutura que envolve:
1. Equipes diversas
Não só nas reportagens, mas na decisão editorial, no planejamento e na opinião.
2. Revisão de linguagem
Palavras produzem realidade. A escolha delas deve ser consciente, crítica e responsável.
3. Parceria real com mídias negras
Produzir em conjunto, redistribuir visibilidade e reconhecer quem historicamente narra o país a partir de seus territórios.
4. Escuta ativa dos territórios
Não basta ir às periferias, quilombos ou aldeias: é preciso escutar a partir deles, incorporando saberes, repertórios e contextos.
Comunicação antirracista é redistribuir autoria, decisão e narrativa. É deslocar o centro. É reconhecer que o jornalismo só cumpre seu papel quando assume a disputa simbólica que o atravessa — e quando compreende que nomear o racismo não é uma escolha editorial, mas um compromisso ético.









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