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O que está em jogo para a população negra? Eleições, mídia e o futuro da comunicação pública

há 10 minutos
4 min de leitura

Em períodos eleitorais, o debate público costuma se concentrar em candidaturas, pesquisas e disputas partidárias. Mas, para a população negra, há questões que ultrapassam nomes e siglas: que projeto de Estado está em disputa? Quais direitos podem ser ampliados ou ameaçados? Quem tem espaço para falar? E quais narrativas chegam à população por meio da mídia?


Para o Instituto Commbne, organização comprometida com a justiça racial, a comunicação e a democracia, acompanhar esse cenário também significa analisar propostas, discursos e políticas públicas a partir de seus possíveis impactos sobre a população negra.


Esse acompanhamento não se confunde com ataque partidário. É exercício de controle social e participação democrática. Em uma sociedade marcada por desigualdades raciais históricas, decisões sobre trabalho, educação, moradia, segurança, comunicação e políticas sociais têm efeitos concretos sobre a vida da população negra.


O que está em jogo nos direitos da população negra?


As escolhas eleitorais também dizem respeito ao modelo de Estado que queremos construir. No campo do trabalho e da ascensão social, propostas de privatização de empresas públicas e mudanças que fragilizem a estabilidade no serviço público precisam ser analisadas considerando quem historicamente encontra nesses espaços possibilidades de acesso a direitos, renda e mobilidade social.


O mesmo vale para as políticas sociais. Programas como Farmácia Popular e Minha Casa, Minha Vida, além das políticas de ações afirmativas e cotas nas universidades, não podem ser tratados apenas como itens de uma disputa administrativa. São políticas que incidem sobre desigualdades estruturais e sobre as possibilidades de acesso da população negra a direitos fundamentais.


Na segurança pública, também está em disputa uma concepção de Estado e de cidadania. A adoção de políticas baseadas prioritariamente no confronto e no aumento da violência estatal precisa ser debatida diante de seus efeitos sobre territórios periféricos e populações historicamente expostas à violência. Por isso, olhar para as eleições a partir da perspectiva racial não significa reduzir o debate a uma única pauta. Significa reconhecer que a desigualdade racial atravessa as diferentes dimensões da vida social.


A mídia também participa da disputa


As eleições não acontecem apenas nas urnas. Elas também são disputadas no campo da comunicação.

A maneira como candidaturas, propostas e acontecimentos são selecionados, hierarquizados e apresentados ao público influencia a percepção sobre o que é considerado relevante no debate político. O enquadramento editorial importa.


Para uma organização que atua no campo da comunicação e do observatório de mídia, monitorar veículos de grande alcance, como a Rede Globo, faz parte do exercício de acompanhar criticamente a esfera pública.


A questão não é exigir que a imprensa adote uma determinada posição política. O ponto é outro: quais temas ganham centralidade, quais vozes são ouvidas e quais problemas estruturais permanecem invisibilizados?


Quando o debate eleitoral trata desigualdades profundas como questões secundárias, enquanto determinadas propostas são apresentadas como naturais ou inevitáveis, é necessário questionar os efeitos desse enquadramento.


A população negra é maioria no Brasil. Ainda assim, suas experiências, demandas e perspectivas não necessariamente ocupam espaço proporcional na agenda dos meios de comunicação.

Discutir isso é discutir pluralidade, diversidade e direito à informação.


Comunicação pública é direito, não mercadoria


A disputa pela comunicação também passa pelas instituições públicas. Nesse contexto, propostas como o PL 995/2026, que prevê a extinção da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), precisam ser acompanhadas com atenção. A comunicação pública cumpre uma função que não deve ser confundida nem com comunicação comercial nem com propaganda governamental. Seu princípio deve ser o compromisso com o direito da sociedade à informação plural, diversa e de interesse público.


Para a população negra, a existência de espaços públicos de comunicação também é relevante porque amplia as possibilidades de representação de grupos, territórios e temas que nem sempre encontram espaço nos grandes conglomerados privados.


Defender a comunicação pública, portanto, não significa defender governos de ocasião. Significa defender uma estrutura de comunicação que deve estar a serviço do interesse público e submetida ao controle democrático da sociedade.


Fortalecer mídias independentes e negras


Ao mesmo tempo em que a comunicação pública enfrenta disputas, as mídias independentes e negras seguem desempenhando um papel fundamental na construção de outras narrativas. São iniciativas que produzem informação a partir dos territórios, pautam questões frequentemente negligenciadas pela grande imprensa e possibilitam que pessoas negras não sejam apenas objeto das narrativas, mas também sujeitas da produção de informação e conhecimento.


Fortalecer essas iniciativas é ampliar a diversidade do ecossistema de comunicação brasileiro é também disputar o direito de contar nossas próprias histórias, denunciar violações, produzir memória e construir referências que não estejam submetidas exclusivamente aos filtros de grandes grupos empresariais ou às lógicas tradicionais de representação. A comunicação, nesse sentido, é também uma questão de soberania, democracia e justiça racial.


O que está em jogo é também quem pode narrar o Brasil


As eleições definem muito mais do que quem ocupará determinados cargos, elas ajudam a definir prioridades de governo, modelos de Estado e políticas que podem produzir efeitos durante anos. Mas a democracia também depende de outra disputa: a disputa pelos sentidos que circulam na sociedade.

Quem define os temas relevantes? Quem aparece? Quem é ouvido? Quem é representado? Quem produz informação? Quem controla os meios de comunicação?


Essas perguntas precisam estar no centro do debate. Defender a democracia é defender direitos. É defender políticas que enfrentem desigualdades históricas. É defender uma comunicação pública comprometida com o interesse coletivo. E é também fortalecer meios independentes e negros para que a população possa produzir e disputar suas próprias narrativas.


A defesa da democracia, dos direitos e da nossa voz é inegociável.

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