Reescrever, Ressignificar, Renomear: por uma comunicação antirracista na América Latina
- COMMBNE

- há 5 dias
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Introdução
Na América Latina, a persistência do racismo estrutural manifesta-se em discursos midiáticos, tecnológicos e educacionais que, por vezes, reproduzem a exclusão racial e a invisibilização de comunidades afrodescendentes e indígenas.
Este artigo investiga a ética comunicacional antirracista na região e propõe um marco analítico baseado em três processos transformadores:
• Reescrever: redefinir e contrapor narrativas hegemônicas por meio de mídias alternativas, ativismo digital e uma reorientação em direção a discursos contra-hegemônicos;
• Ressignificar: reconstruir os significados de termos e práticas em contextos históricos de opressão, a fim de conferir maior agência e visibilidade às comunidades racializadas;
• Renomear: criar e adotar novos conceitos que desafiem o cânone racial vigente, como “racismo algorítmico” e a justiça no uso de tecnologias digitais.
Os dados reunidos a partir de diversos estudos e textos produzidos em contextos do Brasil, da Colômbia, do Chile e de outras regiões da América Latina evidenciam como a digitalização — embora possa amplificar desigualdades já existentes — também oferece ferramentas para a transformação comunicacional. O artigo conclui apresentando recomendações dirigidas a meios de comunicação, desenvolvedores de tecnologia e sistemas educacionais, com vistas à implementação de práticas éticas de comunicação que combatam a discriminação racial.
A persistência do racismo estrutural na América Latina tem-se manifestado historicamente por meio de discursos que invisibilizam os conflitos decorrentes da desigualdade racial. Tradicionalmente, o mito da mestiçagem e a suposta “democracia racial” contribuíram para ocultar a existência de hierarquias baseadas na cor da pele e na origem étnica. Contudo, no contexto contemporâneo, a emergência de tecnologias digitais e a reconfiguração dos meios de comunicação têm modificado as dinâmicas de poder, ampliando tanto as oportunidades quanto os desafios para a inclusão racial.
A ética comunicacional antirracista exige a transformação das estruturas discursivas e midiáticas por meio de processos de reescrita, ressignificação e renomeação de conceitos e práticas que historicamente contribuíram para a exclusão. Este texto concentra-se em como essas estratégias podem reestruturar as narrativas em contextos midiáticos, tecnológicos e educacionais, abrindo caminho para uma comunicação que reflita a complexidade e a diversidade das realidades latino-americanas.
Reescrever: narrativas contra-hegemônicas em mídia e tecnologia
O primeiro processo, reescrever, concentra-se na necessidade de contrapor as narrativas dominantes que historicamente marginalizaram grupos racializados. A reescrita implica a produção de discursos contra-hegemônicos que utilizem o poder da comunicação midiática e digital para tornar visíveis realidades historicamente invisibilizadas.
No Brasil, a emergência de mídias e coletivos afrodescendentes, como Alma Preta, Correio Nagô e Notícia Preta, tem possibilitado que comunidades negras reivindiquem espaço nas redações, enfrentando a ausência de representação nos meios de comunicação tradicionais. Esses projetos não apenas oferecem narrativas alternativas, como também convidam à reflexão sobre um modelo de jornalismo que se afaste de estereótipos e de representações simplificadas da realidade.
A importância da criação de mídias próprias reflete-se nas falas de lideranças desses coletivos, que enfatizam a necessidade de uma imprensa “que fale de nós para todos” e que seja capaz de gerar engajamento e mobilização social. Essas iniciativas constituem ferramentas centrais para reescrever histórias que a imprensa corporativa historicamente marginalizou ou distorceu.
O ativismo digital antirracista protagonizado por jovens constitui outra dimensão fundamental do processo de reescrita. No Brasil e na Colômbia, o fenômeno do Digital Anti-Racism Activism (DARA) emergiu como uma forma de contrapor narrativas opressivas e mobilizar jovens afrodescendentes na luta contra a discriminação no ambiente digital. Por meio de hashtags, campanhas e do uso estratégico de plataformas digitais, esses jovens transformam a dor do “luto” em luta, promovendo uma redefinição de identidade e de participação cidadã que desafia o status quo.
A reescrita também implica a transferência deliberada do controle dos meios de comunicação para atores comunitários e coletivos minoritários. A incorporação de perspectivas diversas na produção jornalística, assim como a formação de profissionais com sensibilidade antirracista, é fundamental para superar a hegemonia de discursos que perpetuaram preconceitos.
TABELA 1 – Comparação entre meios de comunicação tradicionais e alternativos com abordagem antirracista (2026)

Este diagrama ilustra a importância de um processo cíclico e participativo, no qual as comunidades desempenham um papel central na reconfiguração das narrativas culturais e midiáticas.
DIAGRAMA 1 – Fluxo do processo de reescrita na produção de discursos contra-hegemônicos em meios de comunicação e tecnologia.

Ressignificar: alterando o significado dos discursos e das práticas
O segundo processo, ressignificar, baseia-se na transformação dos significados historicamente atribuídos a determinados termos, símbolos e práticas. A ressignificação é fundamental para desmantelar a aparente neutralidade da tecnologia e dos discursos que perpetuam desigualdades.
Um exemplo contundente observa-se na campanha impulsionada pela ativista Monique Evelle, que transformou expressões tradicionalmente negativas. Ao reconstruir a frase “É coisa de preto” em “Se é coisa de preto, é coisa boa!”, promove-se uma mudança na percepção da imagem do corpo afrodescendente. Essa ressignificação da linguagem não apenas desafia estereótipos, como também fortalece as comunidades ao reivindicarem suas próprias narrativas.
A ressignificação estende-se também ao campo tecnológico. Iniciativas como o projeto Okama Suei, no qual a Cooperativa Sulá Batsú apoia mulheres cabécares na preservação de saberes ancestrais, exemplificam como a tecnologia pode ser ressignificada para promover a conservação de conhecimentos e a afirmação da identidade cultural. Ao debater e decidir sobre a apropriação (ou não) de tecnologias contemporâneas, as comunidades demonstram como ressignificar ferramentas digitais para que se adequem às suas realidades e necessidades específicas.
Outro aspecto central é a crítica à suposta neutralidade das tecnologias digitais. Sistemas de inteligência artificial e algoritmos não são inerentemente neutros, mas reproduzem e amplificam preconceitos existentes, configurando-se como “sistemas de discriminação”. Ao ressignificar o discurso em torno dessas tecnologias, defende-se o uso do termo “racismo algorítmico” e enfatiza-se a necessidade de auditorias independentes que incorporem perspectivas críticas e diversas.
TABELA 2 – Exemplos e processos de ressignificação nos discursos e nas tecnologias na América Latina

Nota: esta tabela ressalta como a ressignificação pode transformar tanto o discurso linguístico quanto o design e o uso de tecnologias, dotando-os de uma abordagem crítica e libertadora. Fonte: elaborada pela autora (2025).
O diagrama Mermaid a seguir ilustra o processo de ressignificação de discursos e tecnologias em contextos antirracistas. Dessa forma, este diagrama mostra a transição desde a identificação de discursos tradicionais até a consolidação de novos significados que promovem a equidade e a inclusão.

Renomear: novos termos para uma realidade transformada
O terceiro processo, renomear, implica a criação e adoção de novos termos e conceitos que questionem e desmontem as categorias raciais impostas pela história colonial e pelos discursos hegemônicos.
O uso de expressões como “racismo algorítmico” exemplifica a necessidade de renomear fenômenos antes descritos de forma ambígua ou ocultados sob a aparente neutralidade tecnológica. Ao renomear esses conceitos, evidencia-se a interseção entre tecnologia e racismo, demonstrando que os algoritmos podem reproduzir práticas discriminatórias e que exigem regulação ética.
O debate sobre a mestiçagem na América Latina tem sido historicamente utilizado para negar a existência de desigualdades estruturais. Renomear implica questionar o mito da “democracia racial”, especialmente em países como o Brasil, onde a mistura de raças é frequentemente apresentada de forma superficial. Esse processo convida a ressignificar a identidade cultural e a explicitar as hierarquias raciais subjacentes.
A implementação de técnicas de análise estatística sobre raça e cor tem permitido evidenciar desigualdades no acesso a recursos e oportunidades. A renomeação dessas práticas — de uma suposta neutralidade para uma análise crítica — contribui para a formulação de políticas públicas baseadas em dados racializados.
A tabela a seguir compara conceitos tradicionais e seus novos nomes derivados do processo de renomeação:
TABELA 3 – Comparação entre meios tradicionais e novos conceitos antirracistas

A expansão das tecnologias digitais trouxe consigo importantes desafios no enfrentamento ao racismo. Diversos estudos têm demonstrado que as plataformas digitais podem amplificar desigualdades e contribuir para a disseminação de discursos de ódio.
Durante a pandemia de COVID-19, observou-se que as tecnologias digitais emergentes intensificaram as desigualdades raciais, afetando de forma desproporcional grupos minoritários, tanto no acesso a benefícios quanto na exposição a violações de direitos humanos. O uso de algoritmos para
classificação e vigilância foi identificado como um fator que reforça estruturas discriminatórias, colocando em risco o acesso à justiça e a igualdade perante a lei.
Casos específicos, como o da estigmatização de migrantes haitianos no Chile durante a crise da COVID-19, evidenciam como as narrativas digitais podem perpetuar imagens de “sujeira” e “doença” associadas a determinados grupos étnicos. O uso das redes sociais para difundir discursos xenófobos e racistas reforça a necessidade de estratégias eficazes para combater a propagação do ódio no ambiente on-line. A aplicação de tecnologias de reconhecimento facial e de algoritmos de inteligência artificial tem gerado preocupações quanto à suposta “neutralidade” desses sistemas. Foram documentados casos em que tais tecnologias potencializam a discriminação, como no uso da vigilância biométrica direcionada a
minorias. Esse fenômeno, denominado “racismo algorítmico”, demanda uma regulação ética e mecanismos de responsabilização que transcendam a mera engenharia técnica.
A tabela a seguir sintetiza os principais desafios e oportunidades do ambiente digital a partir de uma perspectiva antirracista.
TABELA 4 – Desafios e oportunidades nos âmbitos digitais para a ética comunicacional antirracista

Rumo a uma ética comunicacional antirracista: recomendações
Para transformar a comunicação na América Latina, é fundamental atuar em três áreas-chave: meios de comunicação, tecnologia e educação.
Meios de comunicação: ampliar a diversidade nas redações, investir na formação antirracista e fomentar mídias alternativas comprometidas com narrativas contra-hegemônicas.
Tecnologia: promover auditorias algorítmicas, incentivar a participação comunitária no desenvolvimento tecnológico e avançar na construção de uma justiça algorítmica.
Educação: incorporar estudos críticos de raça, fortalecer a alfabetização digital crítica e incentivar a produção de conteúdos por comunidades marginalizadas.
Conclusões
A transformação da comunicação na América Latina, por meio dos processos de reescrever, ressignificar e renomear, não é apenas uma necessidade ética, mas também um imperativo de justiça social. A interseção dos discursos midiáticos, dos algoritmos tecnológicos e das práticas educativas oferece múltiplos pontos de intervenção para combater o racismo estrutural. É fundamental que tanto os atores do âmbito midiático quanto os responsáveis por políticas e educadores se comprometam com a construção de um novo marco ético que permita visibilizar, compreender e transformar as realidades históricas de opressão.
Somente por meio de uma ação coordenada nos níveis da mídia, da tecnologia e da educação a América Latina poderá avançar rumo a uma comunicação antirracista integral, que não apenas desafie as narrativas tradicionais, mas também potencialize a agência e o empoderamento das comunidades mais vulneráveis. A criação de novos termos, a ressignificação de discursos e a reescritura de narrativas são processos dinâmicos e complementares que, ao se articularem em políticas públicas e práticas cotidianas, abrem o caminho para uma transformação social profunda e duradoura.



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