O Jornalismo do Correio Nagô: experiênciasde comunicação comunitária, independente e midiativista em Salvador-BA
- COMMBNE

- 17 de abr.
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Resumo
O texto a seguir apresenta a trajetória do portal Correio Nagô, criado pela organização social sem fins lucrativos Instituto Mídia Étnica, em 2008, na cidade de Salvador, capital da Bahia, território de maioria populacional negra (83,2% de pretos e pardos — PNAD/IBGE, 2022) e reconhecida internacionalmente pelas heranças africanas preservadas na cultura e pelo ativismo negro, expresso em movimentos políticos e expressões artísticas.
O Correio Nagô integra uma rede de veículos antirracistas surgidos no ambiente digital desde os anos 2000, cujas práticas de comunicação reforçam as lutas pela cidadania da população negra. Este texto tem como objetivo abordar o alinhamento entre os propósitos da comunicação comunitária, do jornalismo independente e do midiativismo com as bandeiras de enfrentamento dos movimentos negros em Salvador, destacando estratégias de resistência que passam pela utilização de veículos comunitários, populares e alternativos como espaços de confronto aos discursos hegemônicos e de visibilidade de demandas sociais por direitos e representatividade.
O texto demonstra como o Correio Nagô está vinculado à imprensa negra (PINTO, 2010) e ao midiativismo (FREITAS, 2018), práticas comunicacionais e ativistas que privilegiam subjetividades (MORAES, 2019), por meio de contranarrativas aos paradigmas legitimadores da objetividade e da imparcialidade jornalística — os quais, ao longo da história, não conseguiram contornar as barreiras do racismo na abordagem das temáticas relacionadas às populações negras no Brasil.
Palavras-chave: Jornalismo; Midiativismo; Imprensa Negra; Comunicação Comunitária.
Introdução
Em oposição ao discurso hegemônico dos meios de comunicação comerciais, consolidou-se no país uma tradição de imprensa negra: veículos comprometidos com a construção de narrativas contra-hegemônicas, que encontraram, nos avanços tecnológicos e nos meios digitais, a possibilidade de ampliar a inserção e a produção de outros discursos. Trata-se de atuações contemporâneas de veículos e comunicadores negros que utilizam o ambiente da cibercultura para a produção e circulação de discursos jornalísticos antirracistas.
A comunicação comunitária tem cumprido importante função ao se contrapor ao pensamento hegemônico que orienta os veículos de comunicação de massa, comprometidos com os discursos oficiais e com as narrativas do poder. Na contramão, as mídias comunitárias trazem novas vozes e outras narrativas, contribuindo para a participação de cidadãos historicamente excluídos das esferas de discussão públicas e dando visibilidade às demandas por cidadania.
“Representatividade importa.”: essa tem sido a máxima das disputas narrativas travadas no âmbito dos meios de comunicação, seja na mídia tradicional de massa, seja no ambiente digital das chamadas mídias pós-massivas. Ampliando bandeiras históricas pelo direito à comunicação, os grupos sociais, organizados ou não, e os indivíduos das diversas esferas sociais têm exigido o direito de serem representados nos produtos midiáticos que consomem cotidianamente.
André Lemos (2014) estabelece uma distinção entre as mídias de função massiva, cujo controle da informação é mantido por verbas publicitárias, grandes empresas e grupos políticos, e as mídias de função pós-massivas, marcadas por um fluxo informacional descentralizado. “A emissão é aberta, sem controle, mais conversacional”.
Além de terem suas histórias pautadas pela mídia, os grupos comunitários passaram a também exigir o protagonismo na produção e na visibilidade dos conteúdos. Dessa forma, o espaço hegemônico passa a ser disputado também por comunicadores populares, oriundos de comunidades e representantes da rica diversidade populacional brasileira.
A comunicação popular, comunitária e alternativa (PERUZZO; OTRE, 2015) tem cumprido importante função ao se contrapor ao pensamento hegemônico que orienta os grandes veículos de comunicação de massa, comprometidos com os discursos oficiais e com as narrativas do poder. Na contramão, as mídias comunitárias trazem novas vozes e outras narrativas, contribuindo para a participação de cidadãos historicamente excluídos das esferas de discussão públicas e dando visibilidade a novas demandas por cidadania.
Com o avanço tecnológico e a consolidação da comunicação em ambiente digital, os veículos populares e comunitários tiveram a oportunidade de expandir sua atuação, consolidando sua importância. No século XXI, a comunicação comunitária enfrenta o desafio de continuar reverberando contranarrativas, ao passo que incorpora, cada vez mais, em seus discursos, as reivindicações por representatividade.
O portal Correio Nagô foi criado pela organização social sem fins lucrativos Instituto Mídia Étnica, em 2008, na cidade de Salvador, capital da Bahia, território de maioria populacional negra (83,2% de pretos e pardos — PNAD/IBGE 2022), reconhecida internacionalmente pelas heranças africanas preservadas na cultura e pelo ativismo negro expresso em movimentos políticos e expressões artísticas.
O Correio Nagô integra uma rede de veículos antirracistas surgidos no ambiente digital desde os anos 2000, cujas práticas de comunicação reforçam as lutas pela cidadania da população negra. Este texto tem como objetivo abordar o alinhamento entre os propósitos da comunicação comunitária, do jornalismo independente e do midiativismo com as bandeiras de enfrentamento dos movimentos negros em Salvador, destacando estratégias de resistência que passam pela utilização de veículos comunitários, populares e alternativos como espaços de confronto aos discursos hegemônicos e de visibilidade das demandas sociais por direitos e representatividade.
Além de se aliar à trajetória construída pela militância negra na capital baiana, o Correio Nagô expressa uma experiência de midiativismo (FREITAS, 2018) desenvolvida pelo Instituto Mídia Étnica, organização representativa do cenário que se consolidou a partir da popularização da internet e da expansão dos meios digitais nos anos 2000. O Instituto, sediado em Salvador, realiza projetos que visam assegurar o direito humano à comunicação e ao uso das ferramentas tecnológicas, especialmente para a comunidade afro-brasileira.
Mantido pelo Instituto Mídia Étnica, por meio do voluntariado de seus membros e da captação de recursos junto a organismos nacionais e internacionais de fomento às práticas de mobilização social, o portal Correio Nagô representa os ideais de uma mídia independente, colaborativa e contra-hegemônica almejados pelos movimentos de comunicação comunitária.
Em Salvador, observa-se um alinhamento entre os propósitos da comunicação comunitária e as bandeiras de enfrentamento dos movimentos negros, com destaque para as estratégias de resistência que envolvem a utilização de veículos comunitários, populares e alternativos como espaços de confronto dos discursos hegemônicos e de visibilidade das demandas sociais por direitos.
O ano de 2005 foi significativo para as lutas antirracistas contemporâneas na cidade de Salvador. Um ano após a aprovação das ações afirmativas que levaram à implantação das cotas raciais no acesso à Universidade Federal da Bahia, a capital baiana vivenciou a criação do Programa de Combate ao Racismo Institucional, fruto de um convênio entre a Prefeitura Municipal e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD/ONU), voltado ao combate ao racismo e à promoção da igualdade racial em todos os órgãos e entidades da administração pública municipal.
A institucionalização dessas políticas foi acompanhada por uma forte mobilização da sociedade civil, com a criação de organizações, coletivos, núcleos e associações que buscavam discutir as especificidades do racismo em áreas estratégicas como saúde, educação, meio ambiente, segurança pública e comunicação. Entre as entidades atreladas ao movimento negro criadas em 2005, destacam-se o Instituto Mídia Étnica, o CMA Hip-Hop – Comunicação, Mobilização e Atitude, a Campanha Reaja ou Será Morto, o Núcleo de Religião de Matriz Africana da Polícia Militar da Bahia (Nafro-PM), entre outros espaços de luta.
Nesse mesmo ano, o movimento pela democratização da comunicação organizou uma série de atividades, inserindo a cidade no calendário nacional de mobilizações pelo direito humano à comunicação. Fruto de uma parceria entre o CMA Hip-Hop e o Instituto Mídia Étnica, com apoio da Secretaria Municipal de Reparação, foi realizado o seminário intitulado RAP’ensando as Rádios Comunitárias, com o objetivo de promover um diálogo entre emissoras de rádio comunitária de Salvador e Região Metropolitana que abriam espaço em sua programação para a música rap, uma das expressões da cultura hip-hop.
A programação do seminário contou com um debate entre o ativista do Movimento Negro Unificado (MNU), Hamilton Borges; o publicitário Paulo Rogério Nunes, do Instituto Mídia Étnica; Rafa Lima, um dos fundadores da rádio comunitária do Bairro da Paz; e Ricardo Andrade, do jornal comunitário Folha Popular, veículo independente de Lauro de Freitas.
Também houve a exibição do filme Uma Onda no Ar (RATTON, 2002), que conta a história da Rádio Favela, de Belo Horizonte, pioneira na comunicação comunitária. Na ocasião, Hamilton Borges compartilhou seu relato de atuação junto à Rádio Favela.
O DJ Hamilton Oliveira, conhecido como Branco, criador do CMA Hip-Hop, foi um dos realizadores do seminário e relata que a motivação partiu do desejo de compartilhar as experiências entre as emissoras de rádios. “Em um levantamento da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço), existiam, naquele ano, mais de 500 rádios comunitárias no Brasil com programas de hip-hop, incluindo um programa na rádio pública de Porto Alegre” (OLIVEIRA, 2021).
Desde 2001, Branco atua como comunicador, com passagem pelas rádios comunitárias Avançar, do Bairro da Paz; Popular, de Mussurunga; e Nova Onda, de Jardim das Margaridas — todos bairros da periferia de Salvador. Atualmente, DJ Branco comanda o programa Evolução Hip-Hop, veiculado pela rádio pública Educadora 107.5 FM desde 2007. No programa, além da música rap, são veiculadas entrevistas, debates e informações sobre o universo do hip-hop e as agendas de mobilização do movimento negro brasileiro.
Quem hoje acompanha o sucesso de artistas do rap como Emicida, Karol Conká e MV Bill provavelmente não sabe que os programas de rap das rádios comunitárias foram, durante muito tempo, as únicas oportunidades de visibilidade do movimento hip-hop nos meios de comunicação, além dos jornais comunitários e fanzines, já que os veículos comerciais de rádio e televisão rejeitavam essa cultura protagonizada pela juventude das periferias brasileiras.
Por uma definição de imprensa negra
Na edição de 2020 do reality show de maior repercussão no país, o Big Brother Brasil, produzido e exibido pela Rede Globo, o ator e cantor Babu Santana protagonizou um diálogo sobre racismo com os outros participantes, que repercutiu bastante nas redes sociais digitais e demais veículos de comunicação.
Além de abordar o processo de escravidão e exploração colonial da África, bem como suas consequências nos dias atuais, o artista falou sobre o incômodo que sente com o termo negro. Abaixo, segue a transcrição de parte do diálogo:
“Pessoas de pele preta não eram chamadas de negro: eram mouros, africanos, qualquer coisa. Negro vem de nigro, do grego, que significa ‘inimigo’. Por isso que eu renego esse nome. Se você pegar no dicionário português, está escrito: ‘Que não remete luz, sinistro’. Não tem uma atribuição positiva para essa palavra.”
“Então qual o certo?”, perguntou a participante Manu Gavassi.
“Para mim, preto”, respondeu Babu. (UOL, 1 abr. 2020)
Apesar da origem da palavra, conforme defendem os linguistas, ser latina (derivada de termos como niger, nigra e nigrum), Babu tem certa razão nos argumentos, especialmente no que diz respeito às definições atribuídas ao termo negro nos dicionários de língua portuguesa. Para nos limitarmos apenas ao Michaelis, entre as nove definições propostas para o adjetivo, apenas duas têm conotação neutra, incluindo a que se refere à etnia.
1)Que tem a cor mais escura de todas, como o piche e o carvão; (2) Que se refere a pessoa de etnia negra; (3) Que não tem luz; completamente escuro e sombrio; (4) Que está encardido; preto; (5) Fig. Que é triste ou lúgubre; (6) Fig. Que anuncia infortúnios; nefasto; (7) Fig. Que inspira medo ou pavor; tenebroso; (8) Que revela crueldade ou sordidez; perverso; (9) Fís. Que absorve toda luz que nele incide.
Mas o adjetivo preto, preferido por Babu, também é associado a definições negativas nos dicionários, ligadas ao que é complicado e perigoso.
1) Que tem a cor do carvão, do ébano ou do piche; (2) Diz-se dessa cor; (3) Diz-se de indivíduo que pertence à raça negra; (4) Diz-se de algo que é bastante escuro; (5) Diz-se das peças escuras de determinados jogos; (6) Diz-se de cartas do baralho dos naipes de paus e espadas; (7) Diz-se de algo que é complicado ou difícil; perigoso; (8) Diz-se de algo que é escuro; sombrio; (9) Gráf. Diz-se de fio, letra etc. com traços mais fortes e grossos que o normal.
É certo que o movimento negro brasileiro passou décadas na defesa do uso político do termo negro, para referir-se às pessoas com traços fenotípicos de herança africana, como pele escura, lábios e nariz grandes e cabelo crespo. Cabia, nessa defesa, inclusive abarcar pessoas que, na classificação oficial do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), se autoreconheciam como pertencentes ao grupo de pretos e de pardos.
Para a filósofa Sueli Carneiro, “negro” é um termo agregador que abarca todas as pessoas negras em sua diversidade, independentemente da tonalidade de pele. É uma resposta à tentativa do racismo de segregar as pessoas negras, enfraquecendo a união e retirando a possibilidade de compreensão da diversidade dentro da população negra.
“Uma das características do racismo é a maneira pela qual ele aprisiona o outro em imagens fixas e estereotipadas, enquanto reserva para os racialmente hegemônicos o privilégio de serem representados em sua diversidade” (CARNEIRO, 2024).
Com o tempo, novos debates foram travados e ampliou-se o leque de identificações raciais, incluindo novos e antigos termos, em um movimento de afirmação da negritude e de orgulho do passado comum e dos traços herdados dos antepassados africanos.
O uso de categorias para nos referirmos ao pertencimento étnico-racial das pessoas varia de acordo com o contexto cultural em que as relações foram construídas, sendo dinâmico e histórico, elaborado por cada tempo e contexto social. Como defende Hall (2015), raça se assemelha mais a uma linguagem do que à nossa forma de constituição biológica.
Como significante, não é possível fixar um único termo ou expressão que dê sentido à ideia de raça ou antirracismo ao longo da história. Os significantes se referem aos sistemas e conceitos de classificação de uma cultura, às suas práticas de produção de sentido. Eles ganham sentido não por aquilo que contêm em essência, mas pelas relações mutáveis de diferença que estabelecem com outros conceitos e ideias dentro de um campo de significação.
Esse sentido, por ser relacional e não essencial, nunca pode ser fixado definitivamente, mas está sujeito a um processo constante de redefinição e apropriação, de perda de velhos sentidos e incorporação de novos.
O autor nos ajuda a entender que não é possível fixar o sentido de um significante para sempre, ou seja, há sempre um certo deslizamento do sentido; uma margem ainda não encapsulada na linguagem e no sentido; algo relacionado com raça que permanece não dito.
Alguém é sempre o lado externo constitutivo, de cuja existência a identidade de raça depende, e que tem como destino certo voltar de sua posição de expelido e abjeto, externo ao campo da significação, para perturbar os sonhos de quem está à vontade do lado de dentro (HALL, 2015).
Portanto, podemos refletir sobre as possíveis definições de uma imprensa negra não por meio de aspectos essencialistas, mas a partir de elementos identitários afirmados por veículos comprometidos com a luta antirracista. Partimos de uma das primeiras definições de imprensa negra à qual tivemos acesso, apresentada por Ana Flávia Magalhães Pinto, em um estudo de referência sobre a temática.
Desse ponto de vista formal, imprensa negra, imprensa brasileira, imprensa abolicionista, imprensa operária ou imprensa feminina seriam somente expressões compostas em que o adjetivo sugere possibilidade de entendimento, às quais também se conectam questões relativas à autoria, ao público e aos objetivos — jornais feitos por negros, para negros, veiculando assuntos de interesse das populações negras (PINTO, 2010, p. 19).
A prática de um jornalismo antirracista, chamado imprensa negra, é herdeira das experiências de comunicação ativistas que vão desde os Boletins Sediciosos da Revolta de Búzios, de 1798; os manifestos abolicionistas publicados por intelectuais negros na imprensa do século XIX; os veículos dirigidos por pessoas negras ou organizações negras ao longo do século XX, como o jornal Quilombo, criado por Abdias do Nascimento, em 1948; o jornal Nêgo, do Movimento Negro Unificado (MNU), entre 1989 e 1994; e o jornal Irohin, editado por Edson Carneiro, entre 1996 e 2010.
Atendendo às exigências de autoria, público e objetivo, essas experiências foram fundamentais para a formação de uma prática comunicadora empenhada em ocupar o espaço da mídia, sobretudo do jornalismo, para ecoar as reivindicações pelos direitos das populações negras.
Pedro Caribé (2018) define as mídias negras como iniciativas que se relacionam, direta ou indiretamente, aos processos políticos dos diversos movimentos negros e que detêm o controle de corpos negros sobre sua propriedade intelectual.
São formas de expressão que transitam entre a escrita literária e jornalística, e entre as imagens em movimento (audiovisual) e paradas (fotografia), independente do suporte: impresso, televisão, cinema e internet (CARIBÉ, 2018, p. 35).
A partir das pesquisas que se debruçaram a entender as estratégias elaboradas por intelectuais negros — escritores, jornalistas, literatos e artistas — para participar dos debates nacionais ao longo da história (PINTO, 2018), é possível afirmar que o uso da imprensa foi fundamental em todo o percurso de resistência das populações negras ao racismo no território brasileiro.
Trata-se de construções discursivas de resistência e de possibilidades de inserção de narrativas contra-hegemônicas na esfera pública e política, espaço de constantes disputas por legitimação.
A imprensa negra brasileira, além de construir um noticiário crítico sobre a condição cidadã do negro no Brasil, expondo os processos discriminatórios e as violências a que essa população é submetida, tem buscado contribuir com o processo de conscientização da importância de valorização da negritude e da discussão da cidadania negra no Brasil (ARAUJO; PERUZZO, 2021).
Araujo e Peruzzo destacam dois aspectos mantidos pela imprensa negra ao longo da história: a difusão de conteúdos relacionados ao cotidiano dos povos negros, que não são devidamente retratados nos meios de comunicação tradicionais, e a aproximação entre as pautas dessa imprensa e os posicionamentos dos movimentos sociais pelo reconhecimento de direitos.
Essa é uma atribuição assumida pela imprensa negra, que supre a pouca visibilidade — e, às vezes, a depreciação — por parte dos veículos hegemônicos das bandeiras de luta dos movimentos sociais, em especial do movimento negro.
Para Araujo e Peruzzo, a caracterização desses veículos como “alternativos” decorre da abordagem diferenciada do que é veiculado sobre a temática racial pela imprensa tradicional, justamente em razão de suas conexões com a negritude.
Nesse sentido, compreende-se que boa parte da imprensa negra brasileira é alternativa, em razão de seu comprometimento com sujeitos e temáticas tratados de forma subalternizada pela sociedade e pela imprensa tradicional.
São experiências que se enquadram na ideia de midiativismo (FREITAS, 2018), entendido como comunicação comunitária e popular, realizada por grupos que produzem iniciativas inclusivas, representativas, participativas, colaborativas e coletivas.
Além de combater as pressões do mercado dominado pelas grandes corporações de comunicação, esses grupos oferecem visibilidade a questões antes invisibilizadas pela ausência de representação ou pela presença desqualificadora (FREITAS, 2018).
Conforme apresenta Muniz Sodré (2000), o problema identitário é também uma questão político-econômica. Tomamos, assim, ciência do que há de problemático na simples afirmação de uma identidade qualquer. Dizer-se ativista e antirracista implica, para o profissional, enfrentar os debates deontológicos do jornalismo, nos quais estão fixados paradigmas como a objetividade e a imparcialidade, os quais o entendimento comum busca proteger de qualquer tomada de posicionamento político.
Sodré destaca a elaboração psicanalítica segundo a qual “não há identidade, mas identificações”, compreendidas como a ocupação de posições diferentes pelo sujeito, segundo a dinâmica das formas sociais. A identidade estável dá lugar a identificações movediças — grupais, afetivas e mediáticas —, que podem colocar em crise categorias tradicionais como classe, função e gênero.
Para Stuart Hall (2015), os sistemas de produção de sentido, nos quais se inscrevem as disputas raciais, são discursivos e funcionam dentro da linguagem. Isso possibilita que as representações não sejam encaradas como essenciais ou fixas, mas como elementos sujeitos a um processo constante de redefinição.
Os veículos jornalísticos que integram as mídias digitais negras funcionam, assim, como ferramentas de reelaboração e apropriação na produção de sentidos, incorporando novas vozes, perspectivas, reivindicações e afetos oriundos dos movimentos sociais, artísticos e políticos antirracistas ao campo do jornalismo.
Herdeiras das experiências da imprensa negra (PINTO, 2010) e associadas aos movimentos de midiativismo (FREITAS, 2018), as mídias digitais negras constroem novas formas de vinculação entre fontes e audiências, por meio do acionamento dos afetos, da valorização das subjetividades e do questionamento da imparcialidade.
Esses veículos desenvolvem suas práticas jornalísticas a partir dos princípios da cibercultura e da convergência midiática, como a conectividade, a inteligência coletiva e a cultura participativa. Trazem para o campo do jornalismo novas possibilidades de abordagem, com outras fontes e temáticas, em um reencontro com a função profissional de evidenciar o interesse público, denunciar violações de direitos e registrar disputas de poder.
O jornalismo do portal Correio Nagô
Como exemplo dessas práticas midiativistas no jornalismo antirracista, destaca-se a trajetória do portal Correio Nagô, fundado em 2008, em Salvador.
Criado a partir da inquietação de jovens comunicadores incomodados com a ausência de negros na mídia, o portal nasceu com o propósito de contrapor-se às narrativas hegemônicas, por meio da criação de um site de notícias com identidade, conteúdo e autoria do povo negro (SANTANA, 2022).
O nome Correio Nagô remete a uma das formas de resistência dos primeiros negros escravizados, que transmitiam seus conhecimentos e informações por meio da comunicação oral — uma comunicação boca a boca fundamental nos processos de organização e luta.
As possibilidades trazidas pelo jornalismo digital encontram um campo de exploração significativo nas novas posturas assumidas por profissionais empenhados em utilizar o jornalismo para denunciar o racismo e apresentar novas formas de abordagem da questão racial brasileira.
As produções do Correio Nagô permitem refletir sobre uma representação que se constrói como contra-narrativa aos discursos hegemônicos do jornalismo. O midiativismo atua questionando a estrutura dos meios de comunicação e, ao mesmo tempo, construindo formas alternativas de comunicar, a partir de segmentos sociais que não se reconhecem na mídia tradicional.
Fabiana Moraes (2019) defende que uma prática ativista não significa abrir mão de ferramentas fundamentais do jornalismo, como apuração, pesquisa e escuta de diferentes vozes. Pelo contrário, trata-se de potencializar essas práticas para iluminar aquilo que historicamente foi mantido nas sombras.
A escolha dos temas, das fontes e dos enquadramentos já revela uma tomada de posição que pode tanto desestabilizar representações reducionistas quanto reforçá-las. Nesse sentido, a crítica à falsa dicotomia entre “bom jornalismo” e “jornalismo ativista” ganha força, pois a transparência sobre os posicionamentos pode ser mais ética do que a suposta neutralidade.
Considerações
Para Stuart Hall, raça é uma construção discursiva, um significante em constante deslocamento. Assim, o uso do termo “negro” para definir um campo do jornalismo implica reflexões importantes sobre identificação e posicionamento político.
A imprensa negra pode ser compreendida como aquela produzida por pessoas negras, voltada para pessoas negras e comprometida com a circulação de informações de interesse da população negra, estabelecendo uma identificação comum entre produtores e receptores.
Trata-se de uma prática que busca se contrapor às narrativas hegemônicas e contribuir para a reparação histórica por meio da produção de contra-narrativas.
Se há diferenças entre a mídia hegemônica e as experiências de midiativismo, é fundamental organizá-las como novos paradigmas de produção jornalística e de compreensão do papel social do jornalismo. Trata-se de uma disputa epistêmica e política.
A experiência do Correio Nagô evidencia a busca por um exercício profissional alinhado aos ideais do jornalismo independente, capaz de articular novas formas de produção, circulação e financiamento da informação. Como prática coletiva e política, o midiativismo contribui para o reconhecimento da diversidade étnica e cultural e para o combate ao racismo, à intolerância religiosa e a outras formas de desigualdade, ampliando o acesso à cidadania.
O Correio Nagô se consolida, assim, como um veículo contra-hegemônico, que incorpora novas vozes, perspectivas e afetos ao campo jornalístico, reafirmando o papel do jornalismo como instrumento de transformação social e disputa de sentidos.



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